Meio ambiente

Invasão em terra indígena no Pará ameaça povo isolado e Força Nacional não chega

Justiça deu 48 horas para conter a ocupação, mas o envio das tropas esbarra na exigência de aval formal do governo estadual
Invasão terra indígena Ituna Itatá ameaça povo isolado em plena floresta amazônica no Pará

Cerca de 200 pessoas invadiram em agosto a Terra Indígena Ituna/Itatá, no Pará, arrombaram portões da Funai, derrubaram placas de advertência e demarcaram lotes dentro de uma área interditada à presença de não indígenas desde 2011.

A ocupação avançou poucos dias depois de uma lei estadual criar uma área de proteção ambiental sobre 100% do território, onde vive o povo isolado do Igarapé Ipiaçava. MPF e Defensoria Pública da União alertam para risco iminente de confronto e de genocídio.

Lei estadual abriu a corrida por lotes

A Área de Proteção Ambiental Bacajaí foi publicada no Diário Oficial do Pará em 12 de agosto de 2026 e abrange cerca de 142.400 hectares nos municípios de Altamira e Senador José Porfírio. O projeto que a criou, do deputado estadual Francisco Torres de Paula Filho, o Torrinho Torres, foi apresentado em junho e aprovado por unanimidade.

As primeiras invasões foram relatadas no dia seguinte à publicação da lei. “O que em 13 de agosto se resumia a indícios de abertura de acessos e destruição de estruturas de controle territorial converteu-se, em 16 de agosto, em ocupação instalada, com concentração expressiva de pessoas e demarcação de lotes”, registrou a DPU em ofício.

Proteção mais frágil no papel

Na prática, a sobreposição rebaixa o nível de proteção do território: numa APA, proprietários particulares podem construir casas e criar gado, enquanto a restrição de uso da Funai proíbe a entrada de qualquer pessoa não autorizada. Para o procurador regional da República Felício Pontes Júnior, a criação da unidade foi uma “estratégia calculada” para gerar insegurança jurídica, afirmou em reportagem de Xavier Bartaburu para a Mongabay.

A manobra não é inédita no estado: a redução da Flona do Jamanxim destinou 486 mil hectares a uma APA numa região com 86,6 mil hectares já desmatados. A vizinha APA Triunfo do Xingu, também administrada pelo estado, registra algumas das maiores taxas de desmatamento da Amazônia Legal.

Prazo judicial vencido, tropas paradas

Em decisão de 26 de agosto, a Justiça Federal concluiu que a APA reduz a proteção federal da Ituna/Itatá e declarou a medida inconstitucional. Sem anular a lei estadual, determinou que ela não pode alterar o regime federal em vigor e mandou União e Funai enviarem a Força Nacional em até 48 horas, sob multa diária de R$ 50 mil.

O prazo venceu sem que nenhuma equipe chegasse ao local. O Ministério da Justiça e Segurança Pública diz estar pronto para o envio, mas afirma que ele depende da concordância formal do governo do Pará, exigida pela legislação e pelo Supremo Tribunal Federal.

Não é a primeira vez que a Justiça cobra ação da União em terra indígena paraense sob ameaça: em maio, o STF deu 90 dias ao governo federal para desocupar a Cachoeira Seca.

Enquanto o impasse se arrasta, o número de ocupantes chegou a cerca de 500 em 24 de agosto, segundo Helena Palmquist, coordenadora-adjunta do Observatório dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. O território já perdeu cerca de 20 mil hectares de floresta primária e foi a terra indígena mais desmatada do país em 2019.

Agentes da Funai relatam dificuldade para fiscalizar e controlar o acesso à área. As condições de atuação em campo reforçam a pressão dos servidores sobre o Congresso por porte de arma. Torrinho Torres, pecuarista e candidato à reeleição, e o prefeito de Senador José Porfírio não responderam aos pedidos de comentário.