Economia

Petrobras confirma 1ª descoberta de indícios de petróleo na Foz do Amazonas

Poço Morpho, perfurado a 2.886 metros de profundidade no litoral do Amapá, ainda não garante reserva comercial
Trabalhador da Petrobras com vista aérea do Amapá simbolizando a descoberta de petróleo na Foz do Amazonas

A Petrobras confirmou na sexta-feira (14) a primeira descoberta de indícios de petróleo e gás natural na Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. O sinal apareceu no poço exploratório Morpho, marco para uma das fronteiras mais disputadas do país.

Perfurado a 175 quilômetros da costa, em lâmina d’água de 2.886 metros, o poço ainda não comprova reserva comercial — a estatal seguirá perfurando para medir o volume encontrado e avaliar se a produção é viável.

Como os indícios foram identificados

A presença de hidrocarbonetos foi identificada por meio de análises feitas durante a perfuração do poço Morpho, incluindo perfis elétricos e amostras de rochas retiradas do subsolo — métodos que permitem detectar sinais de petróleo e gás presos nas formações geológicas. Encontrar hidrocarbonetos, no entanto, é apenas uma das primeiras etapas da exploração de uma área: a Petrobras agora vai aprofundar os estudos para responder a duas perguntas centrais — quanto petróleo ou gás existe no local e se a quantidade é suficiente para justificar a produção.

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a descoberta reforça o potencial da Margem Equatorial brasileira, área que a estatal considera estratégica para repor reservas e sustentar a produção nacional nas próximas décadas. Em entrevista à Globonews no sábado (15), ela projetou que o Amapá poderá estar produzindo petróleo em águas ultraprofundas em seis ou sete anos, após a definição do porte da descoberta e do projeto de desenvolvimento. Para Chambriard, o achado é “absolutamente relevante” porque, sem reposição de reservas, o Brasil correria o risco de voltar a importar petróleo nos próximos anos. “Essa descoberta no Amapá representa a manutenção do Brasil como um polo geopoliticamente importante no mundo do petróleo na próxima década como um todo”, declarou.

O bloco onde o poço foi perfurado, batizado FZA-M-59, pertence integralmente à Petrobras, que arrematou a área em um leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realizado em 2013.

Uma perfuração que dependeu de mais de uma década de licenciamento

O poço Morpho só pôde ser perfurado depois que o Ibama aprovou, em setembro de 2025, a avaliação pré-operacional da Petrobras na Foz do Amazonas, marco que encerrou um processo de licenciamento ambiental iniciado em 2014. Até chegar a essa etapa, a estatal precisou cumprir exigências como a realização de um simulado de emergência no mesmo bloco FZA-M-59, última condição imposta pelo órgão ambiental antes da liberação da perfuração.

A demora reflete a sensibilidade ecológica da região, situada próxima à foz do rio Amazonas e a ecossistemas marinhos ainda pouco estudados. Para a Petrobras, a descoberta reacende o argumento de que a Margem Equatorial pode se tornar a nova fronteira de produção de petróleo do Brasil, caso os próximos testes confirmem volumes comercialmente viáveis.

O Instituto Brasileiro de Petróleo classificou a descoberta como “muito importante”, por confirmar que o país tem perspectivas positivas para a produção em outras regiões — o que, segundo a entidade, reforça a segurança energética nacional no médio e longo prazo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também reagiu com entusiasmo, chamando o achado de “passaporte para o futuro” do Brasil. A euforia política, porém, não apaga os questionamentos sobre os riscos ambientais e climáticos do projeto: especialistas em energia e pesquisadores ligados a organizações como o Observatório do Clima apontam que o avanço da exploração de combustíveis fósseis na região vai na contramão dos compromissos do país com a transição energética — tensão que tende a marcar o debate sobre o desenvolvimento da área nos próximos anos.

A contestação mais direta ao enquadramento entusiasta veio de Ildo Sauer, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP e ex-diretor da Petrobras entre 2003 e 2007. Em entrevista publicada na quarta-feira (19), Sauer classificou a descoberta como “muito animadora”, mas rejeitou a tese de que ela representaria um “passaporte para o futuro” — a mesma expressão usada por Lula. Para o engenheiro, promessa idêntica foi feita antes do início da exploração comercial do pré-sal, em 2006, e não se cumpriu. “Não foi um passaporte para o futuro”, afirmou. “Os recursos do pré-sal foram queimados até agora.” Sauer defende que o mesmo risco se aplica à Margem Equatorial caso o modelo de distribuição da renda petrolífera não mude — ele argumenta que os ganhos do pré-sal foram absorvidos desproporcionalmente por governos locais, pelo sistema financeiro e por acionistas, inclusive estrangeiros, em detrimento de investimentos estruturais em educação, saúde e infraestrutura.

O ex-diretor também detalhou os passos técnicos que ainda separam a descoberta da produção em escala: a Petrobras precisará perfurar um segundo poço exploratório para confirmar o achado e estimar o volume de óleo, notificar a ANP para obter autorização de um plano de avaliação e, em seguida, conduzir estudos geológicos, geofísicos e de viabilidade econômica antes de qualquer decisão de desenvolvimento. “Tipicamente, leva no mínimo 4 anos até chegar ao início do desenvolvimento”, disse. “Estamos falando de um horizonte de 5 a 7 anos para de fato começar a colocar esse petróleo no mercado.” Para o professor da USP, a cautela é a chave: “A Margem Equatorial ainda é um pássaro voando.”