O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (18) que o petróleo encontrado na Margem Equatorial brasileira tem potencial para se tornar um novo pré-sal, com qualidade que pode superar a do já produzido na costa sudeste do país.
Na ocasião, ele citou o interesse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por petróleo, minerais críticos e terras raras como argumento para que o Brasil proteja suas riquezas naturais.
Descoberta no campo de Morpho anima o governo
A declaração de Lula toma como referência a descoberta anunciada em agosto pela Petrobras no poço Morpho, perfurado na Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 km da costa do Amapá. O achado é considerado o marco inicial da nova fronteira exploratória que o presidente agora compara ao pré-sal.
Após o anúncio, a estatal obteve licença do Ibama para ampliar a exploração em poços próximos a Morpho, dentro da Margem Equatorial. O pré-sal, descoberto na década passada, hoje responde pela maior parte da produção brasileira de petróleo e gás — e é essa escala que o governo mira replicar na nova região.
Essa mesma autorização é o que agora permite à Petrobras avançar de fato no terreno: em entrevista à Reuters nesta terça-feira (22), a diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da estatal, Renata Baruzzi, informou que a empresa enviará, em janeiro, uma sonda de perfuração à Bacia da Foz do Amazonas para iniciar os trabalhos em três novos poços, que vão avaliar a viabilidade comercial da descoberta na região. Outros três poços da bacia ainda aguardam licenciamento ambiental, já que o Ibama tem adotado cautela diante da complexidade da área e exige estudos mais aprofundados antes de liberar novas autorizações.
Um dia depois, nesta quarta-feira (23), em evento de energia promovido pelo IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis) no Rio de Janeiro, a diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia dos Anjos, detalhou o andamento da campanha: a perfuração do próprio poço Morpho, retomada na terça-feira (22), deve ser concluída ainda nesta semana ou na próxima, quando a companhia atingir o intervalo geológico combinado com a ANP — o poço pode chegar a cerca de 7.025 metros de profundidade. Concluída essa etapa, a prioridade passa para os três poços já autorizados pelo Ibama e citados por Renata Baruzzi — batizados de Manga, Crotalus e Morpho Extensão —, que vão ajudar a delimitar o reservatório e estimar o volume de petróleo e, eventualmente, de gás natural existente na área.
Pelo Plano de Negócios 2026-2030 da Petrobras, serão destinados US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 12,85 bilhões) à perfuração de 15 poços na Margem Equatorial — 37,5% de todo o orçamento da estatal para exploração no período, o que dá a medida do peso que a região já ocupa na estratégia da companhia.
O avanço das perfurações, no entanto, é acompanhado de perto por lideranças locais e ambientalistas, que apontam riscos para comunidades tradicionais da região: acidentes ou mesmo a poluição sonora das embarcações podem afetar a pesca artesanal, além de territórios quilombolas e terras indígenas costeiras. Luene Karipuna, integrante da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp), destacou que os calendários tradicionais dessas comunidades são guiados pelas mudanças do tempo e pela disponibilidade sazonal de espécies de caça e pesca.
No mesmo evento do IBP, Sylvia dos Anjos rebateu essas críticas: afirmou que a Petrobras adotou todas as providências necessárias para garantir a perfuração segura do poço e atribuiu parte dos questionamentos à “desinformação”.
Para Lula, garantir o controle sobre essas reservas vai exigir grandes investimentos do governo, dado o tamanho continental do território brasileiro e a necessidade de estruturar a exploração de forma soberana.
Crítica a Trump repete tom usado em maio
Não é a primeira vez que Lula recorre à postura dos Estados Unidos para reforçar a urgência da exploração na Margem Equatorial. Em maio, conforme mostrou o Tropiquim, o presidente já havia usado Trump como argumento, ao comparar o risco de inação brasileira à postura expansionista americana sobre a Groenlândia.
Na mesma fala desta sexta-feira, Lula voltou a criticar Trump e o governo americano pela classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, ampliando o atrito diplomático entre os dois países.
O discurso reforça a estratégia do Planalto de vincular a defesa de recursos estratégicos — petróleo, minerais críticos e terras raras — à narrativa de soberania nacional diante da política externa de Washington.