Economia

Petróleo no Amapá acirra disputa entre promessa de emprego e medo de vazamento em Oiapoque

Cidade de fronteira com a Guiana Francesa saltou de 28 mil para até 45 mil moradores desde o início da perfuração
Trabalhador da Petrobras simboliza exploração de petróleo no Amapá, com Rio Amazonas ao fundo em Macapá

A chegada da Petrobras à costa do Amapá partiu Oiapoque ao meio: de um lado, quem enxerga emprego e renda numa cidade de fronteira com a Guiana Francesa; de outro, quem teme o que um vazamento faria com os rios e a pesca.

Um ano após o início da perfuração em alto-mar, moradores, pescadores e lideranças indígenas ouvidos pelo g1 descrevem um município já transformado — sem que um único barril tenha sido produzido.

Um poço a 175 km da costa

Em agosto, a estatal anunciou ter identificado hidrocarbonetos no primeiro poço perfurado na área, a 175 quilômetros do litoral amapaense — o resultado que confirmou os primeiros indícios de petróleo na Foz do Amazonas. A área fica na mesma faixa oceânica em que Guiana e Suriname já produzem em larga escala.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visitou a região depois do anúncio e chamou o petróleo local de “passaporte para o futuro”, dias após comparar o potencial da Margem Equatorial ao do pré-sal.

Quem vive do rio não comemora

Na aldeia Mangá, às margens do rio Curipi, a 20 quilômetros do centro de Oiapoque, o cacique Wagner Karipuna, de 57 anos, teme que um vazamento alcance os rios da região. Ele se diz “decepcionado” com Lula, que se apresenta como defensor do meio ambiente e dos povos indígenas.

“Os impactos já estão acontecendo”, afirma o cacique, citando o barulho diário de helicópteros e aviões, que segundo ele afasta aves e outros animais. A Petrobras responde que seus estudos indicam não haver probabilidade de o óleo chegar à costa, que mantém diálogo com as comunidades indígenas e que ajustou o tráfego aéreo após conversar com lideranças locais.

Jean Paul Prates, que presidiu a companhia entre 2023 e 2024, resume o impasse: não existe exploração em alto-mar com risco zero — a probabilidade de um vazamento é baixa, mas as consequências podem ser graves. O receio também move a colônia de pescadores Z03, que reúne cerca de 400 profissionais; seu vice-presidente, Joelso Mendonça, teme pelo futuro da atividade.

A cidade inchou antes do primeiro barril

Oiapoque tinha cerca de 28 mil habitantes no Censo de 2022 do IBGE, mais da metade deles beneficiários do Bolsa Família. A prefeitura estima hoje entre 40 mil e 45 mil moradores — salto que o prefeito Inácio Monteiro Maciel associa à chegada de gente desde o início das atividades da estatal. Ele se diz otimista, mas admite que faltam infraestrutura e políticas sociais.

A corrida por imóveis veio junto, e a especulação empurrou famílias das áreas centrais para a periferia. No bairro Nova Conquista, Thais Pereira de Souza, de 32 anos, vive com o marido, dois filhos e a nora grávida numa casa de telhado de zinco, sem água nem energia elétrica; para escapar do aluguel do centro, todos se dividem entre dois colchões e duas redes. Ela aposta que o petróleo melhore sua qualidade de vida.

A pastora Jacqueline Cadete, de 45 anos, voltou ao Brasil depois de anos fora e se mudou para um dos bairros novos no fim de 2025, atraída pela expectativa. Um estudo do Observatório Nacional da Indústria projeta mais de 50 mil empregos no Amapá, e a produção comercial renderia royalties aos governos locais — mas a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, avisou em agosto que nada deve sair do papel antes de seis ou sete anos. Para Lilma Campos, que preside a Associação Comercial e Industrial de Oiapoque, ainda é cedo para medir o tamanho do impacto econômico.

A conta ambiental também segue aberta: estudos sobre a mesma bacia apontam emissões de até 4,7 bilhões de toneladas de CO₂, mais que o dobro do que o Brasil emite em um ano.