As cadeias de manga, uva e maçã movimentam R$ 15 bilhões por ano no Brasil, que já é o terceiro maior produtor de frutas do mundo. A conta desse crescimento, porém, recai sobre quem colhe: jornadas de mais de 16 horas, contratos descartáveis e adoecimento fora das estatísticas.
O retrato é do estudo Dinâmicas do Trabalho Assalariado Rural, feito pela Oxfam Brasil em parceria com a Molina Consulting, que analisou a fruticultura no Vale do São Francisco, em Pernambuco e na Bahia, e na Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul.
“O setor que lucra bilhões não consegue socializar a riqueza produzida. Muito pelo contrário, produz essa riqueza a partir dessa exploração”, disse à Agência Brasil a diretora executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago.
Carteira assinada que não dura o ano
Das 117.341 contratações formais registradas em 2024 no Vale do São Francisco e na Serra Gaúcha, apenas 39,2% seguiam ativas em dezembro: seis em cada dez vínculos terminam antes de o ano fechar. A formalização chegou ao campo, mas absorveu a instabilidade do mercado informal.
Na Serra Gaúcha, as admissões se concentram em janeiro e fevereiro e os desligamentos, em março; indígenas respondem por 21,4% da mão de obra na maçã, puxados por fluxos migratórios do Mato Grosso e do Paraguai. No Vale do São Francisco, o pico vai de julho a outubro. Para a Oxfam, são ciclos conhecidos, que políticas públicas e atuação sindical poderiam amortecer.
O que avança é a mecanização: “A máquina faz em uma semana o que 100 trabalhadores fariam em um mês. Na manga, reduziu mais de 40% os empregos”, relatou aos pesquisadores um dirigente sindical do Vale do São Francisco. A pressão de custos também vem de fora — em 2025, as tarifas dos EUA deixaram produtores da região com excesso de mangas e preços em queda.
Dentro da mesma lavoura, o rendimento varia por cor e gênero: a mulher negra está na base da pirâmide salarial, com R$ 1.449 mensais em média, contra R$ 2.494 do homem branco na mesma atividade. Mais da metade dos ocupados não concluiu o ensino fundamental.
Adoecimento que não chega ao registro
O estudo aponta omissão crônica nas Comunicações de Acidente de Trabalho (CAT): exaustão física, frio extremo, contato com agrotóxicos e falta de equipamento adequado raramente viram registro oficial. No Vale do São Francisco, lideranças sindicais estimam uma intoxicação notificada na rede de saúde para cada cinquenta ocorrências reais.
Para Viviana Santiago, o que sustenta esse silêncio é a escassez de fiscalização: o efetivo do Ministério Público do Trabalho (MPT) deixa “uma grande quantidade de fazendas descobertas”, e as visitas programadas dariam tempo para mascarar violações. A organização defende ampliar a capacidade de auditoria do órgão.
Sindicato como contrapeso
As entidades sindicais aparecem no estudo como a camada de proteção mais efetiva — “não vai ser uma pessoa negociando o seu próprio direito”, resume a diretora —, mas perdem tração diante da informalidade de 69,2% no setor agropecuário, dos contratos curtos e da migração sazonal. Metade dos assalariados rurais (52%) não recolhe para a Previdência Social.
Procurada pela reportagem de origem, a Abrafrutas, que representa produtores e exportadores de frutas, não havia se posicionado. Em outra ponta do mesmo setor, projetos de agricultura familiar irrigada no “Corredor da Miséria”, em Goiás, desenham um modelo em que o pequeno agricultor cultiva a própria terra com apoio técnico da Embrapa.