Quase 2 milhões de brasileiros trabalhavam por meio de aplicativos em 2025, segundo a PNAD Contínua divulgada nesta sexta-feira (4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O grupo representa 1,9% da população ocupada do país.
Apesar de ter rendimento mensal parecido com o dos demais trabalhadores, esse contingente cumpre jornadas mais longas — o que resulta em ganho por hora até 12% menor, segundo o levantamento.
Pela primeira vez, o IBGE mediu também o grau de dependência dessas plataformas: 38,8% dos trabalhadores atuam exclusivamente por meio de um único aplicativo, sem alternativas de renda.
Mais horas, menos por hora
O rendimento médio mensal dos trabalhadores plataformizados foi de R$ 3.147 em 2025, praticamente igual aos R$ 3.148 recebidos pelos demais trabalhadores do setor privado. A diferença aparece na jornada: quem atua por aplicativos trabalha, em média, 44,7 horas semanais, contra 39,3 horas dos demais.
Convertido em valor por hora, o resultado é desfavorável a esse grupo: R$ 16,20, ante R$ 18,40 dos trabalhadores não plataformizados. Entre 2022 e 2025, enquanto o rendimento dos demais trabalhadores cresceu 10,6%, o dos plataformizados avançou apenas 1%. Um estudo do TST divulgado em julho já havia identificado o mesmo padrão entre motoristas de aplicativo: jornadas mais longas compensando, na prática, uma remuneração por hora inferior.
Dependência de um único aplicativo
Em 2025, o IBGE perguntou pela primeira vez com que frequência e quantos aplicativos cada trabalhador utilizava. O resultado: 62,5% usavam apenas uma plataforma, e 38,8% (701 mil pessoas) trabalhavam exclusivamente por aplicativos e com um único app — a combinação que deixa o trabalhador mais sujeito às decisões da empresa.
O controle das plataformas aparece com força entre motoristas e entregadores: 80,2% dos motoristas de transporte particular e 78,3% dos entregadores disseram que o aplicativo determina totalmente o valor pago por tarefa. Uma pesquisa do Fairwork Brasil, em parceria com a Universidade de Oxford, já havia mapeado esse nível de controle sobre preços e clientes, sem encontrar nenhuma plataforma capaz de comprovar proteção social adequada aos trabalhadores.
Motoristas puxam o crescimento, mas sem previdência
Dos 1,974 milhão de motoristas de carro que tinham essa atividade como trabalho principal em 2025, 905 mil (45,9%) atuavam por aplicativos. O rendimento médio era de R$ 2.873, apenas 2,4% acima dos R$ 2.805 dos demais motoristas — mas a jornada chegava a 45,9 horas semanais, contra 40,4 horas. Apenas 25,5% desses motoristas contribuíam para a Previdência, ante 59,2% entre os não plataformizados.
Entre os motociclistas, o cenário de renda é diferente: quem trabalha por aplicativo ganha mais (R$ 2.221 contra R$ 1.802), mas a cobertura previdenciária também é menor (19,4% contra 37,1%). O grupo de motociclistas de aplicativo cresceu 91,9% desde 2022, ritmo bem superior ao das motocicletas em geral (22,6%).
A flexibilidade foi o principal motivo citado para trabalhar por aplicativos (26,8%), mas 24,6% afirmaram que recorreram às plataformas por não conseguir outro emprego. O debate sobre regulamentação segue no Congresso: o relator do projeto de lei dos aplicativos propôs em abril um piso de R$ 14,74 por hora trabalhada, valor acima dos R$ 14,40 recebidos pelos motoristas de carro e dos R$ 11,40 dos motociclistas de aplicativo.