O setor de citricultura brasileiro enfrenta incertezas após o anúncio do tarifaço dos EUA, mesmo com a isenção do suco de laranja. Na safra 2024/25, o volume exportado foi o menor em quase 30 anos, segundo o Cepea/Esalq-USP. Subprodutos essenciais ainda são taxados, e contratos para a próxima safra avançam lentamente.
Impactos do tarifaço e cautela nos contratos
De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), os contratos envolvendo a laranja da safra 2025/26 seguem em ritmo lento. Citricultores demonstram cautela antes de fechar negócios, principalmente devido às incertezas geradas pelo tarifaço anunciado pelo governo Trump.
Embora o suco de laranja brasileiro tenha sido excluído da sobretaxa de 40%, subprodutos fundamentais como óleos essenciais e células cítricas permanecem com taxação de 50%. Em anos anteriores, os contratos eram fechados no primeiro semestre, mas em 2025 estão sendo postergados por conta da safra tardia, queda nos preços após março e, mais recentemente, pelas incertezas tarifárias.
O Cepea observa que a indústria ainda ajusta valores no mercado spot e prefere acompanhar a evolução da oferta e demanda antes de definir novos acordos. O setor aguarda uma movimentação mais consistente para fechar contratos.
Menor volume exportado em décadas
Na safra 2024/25, finalizada em junho, o Brasil registrou o menor volume de exportação de suco de laranja em quase 30 anos. Apesar disso, a receita foi recorde, com crescimento de 28,4% em relação à safra anterior, totalizando US$ 3,48 bilhões, segundo dados do Cepea.
O cenário de oferta restrita ajudou a minimizar o impacto da elevação de 10% nas tarifas, sustentando os embarques. Ainda assim, agentes do setor demonstram receio quanto à recuperação da demanda internacional e aos efeitos indefinidos dos aumentos tarifários.
Desafios fitossanitários e ações regionais
Limeira, polo produtor de laranja no interior de São Paulo, iniciou em junho de 2025 uma campanha para combater o greening, doença bacteriana considerada a mais destrutiva da citricultura mundial. A ação incentiva a substituição das murtas, plantas hospedeiras da bactéria transmissora, principalmente em áreas urbanas e bairros antigos.
O greening, transmitido pelo psilídeo, afeta a saúde das plantas e a produção de frutos. Regiões como Limeira, Avaré e Bebedouro concentram as maiores populações do inseto vetor, elevando as taxas de transmissão da doença. “Consequentemente a gente tem as maiores taxas de transmissão”, explica Guilherme Rodriguez, supervisor de projetos do Fundecitrus.
Mercado internacional e preços em alta
Os Estados Unidos tornaram-se mais dependentes das importações de suco de laranja devido à queda acentuada na produção doméstica, causada por furacões, baixas temperaturas e pelo greening. O estado da Flórida, responsável por 90% do suco americano, sofreu retração de 28% na safra 2024/2025.
Os preços do suco atingiram recordes: a lata de 473 ml chegou a US$ 4,49 (R$ 24,84) em fevereiro de 2025. Apesar da receita recorde para o Brasil, o futuro do setor permanece incerto diante dos desafios fitossanitários e tarifários.