O Vão do Paranã, no nordeste de Goiás, carregou por décadas o estigma de “Corredor da Miséria”. Agricultora do assentamento em Flores de Goiás, Júlia Pereira de Andrade chegou a ficar dois anos sem água dentro da própria terra.
A realidade começou a mudar com a chegada da fruticultura irrigada. Com R$ 23 milhões investidos pela Codevasf e suporte técnico da Embrapa, 80 famílias já cultivam maracujá e manga na região historicamente assolada pela seca e produzem o ano inteiro.
Água subterrânea como vantagem geográfica
A viabilidade do projeto se apoia em uma característica do território. Cercado pela Chapada dos Veadeiros e pela Serra Geral de Goiás, o Vão do Paranã acumula grandes reservas de água subterrânea, o que facilita a perfuração de poços artesianos — base de todo o sistema de irrigação implantado na região.
O modelo distribui dois hectares por agricultor: um de maracujá, cultura que começa a produzir em cerca de seis meses, garantindo retorno financeiro mais rápido, e outro de manga, que leva aproximadamente quatro anos para entrar em produção, mas pode permanecer produtiva por décadas. Cada família recebe kit de irrigação e assistência técnica continuada da Embrapa.
Produtividade acima da média e renda crescente
Os resultados têm surpreendido. Em algumas propriedades, a colheita de maracujá chega a 30 toneladas por safra — o dobro da média nacional. Júlia afirma ter faturado cerca de R$ 15 mil em apenas dois meses com a venda de maracujá e abóbora cultivados na própria chácara.
A renda extra foi usada para quitar parte do financiamento do projeto e investir em energia solar e eletrodomésticos. Para o marido João, que antes operava trator em fazendas alheias, a mudança foi radical: hoje, o casal trabalha junto na própria terra, com perspectiva de renda permanente.
Gargalo na comercialização e soluções em construção
O avanço produtivo ainda esbarra em obstáculos de mercado. Sem compradores fixos, muitos produtores dependem de atravessadores, o que comprime margens e gera incerteza sobre o preço final da colheita.
Para enfrentar o gargalo, agricultores da região formaram uma cooperativa e aguardam a conclusão de uma agroindústria financiada pelo governo estadual de Goiás. A expectativa é processar maracujá e manga localmente, transformando a produção em polpa e agregando valor antes da venda.
O programa também funciona como freio ao êxodo rural. Daniel Rodrigues, de 19 anos e recém-formado em agropecuária, decidiu permanecer na propriedade da família após a implantação do sistema irrigado — apostando em tecnologia onde muitos jovens optam por partir.
A meta é ampliar o atendimento de 80 para 250 famílias e alcançar 500 hectares irrigados no Vão do Paranã. O modelo já despertou interesse fora de Goiás: acordos preveem a replicação em comunidades rurais da Bahia, Mato Grosso e Minas Gerais. “Ainda vou ver essas mangas sendo vendidas para os Estados Unidos”, disse o agricultor Edgar Rodrigues, que hoje se define como um pequeno empresário rural.
