Negócios

Lynas compra projeto de terras raras em Minas por R$ 3,5 bilhões

Australiana assume o Caldeira, maior depósito de argilas iônicas fora da China, e quer estudar refino no Brasil
Bandeira do Brasil e mapa da China ilustram a disputa por terras raras em Minas Gerais.

A australiana Lynas Rare Earths fechou acordo para comprar 100% da Meteoric Resources por cerca de A$ 968 milhões (aproximadamente R$ 3,5 bilhões) e assumir o controle do projeto Caldeira, de terras raras, em Minas Gerais.

Anunciada nesta quinta-feira (1º), a operação coloca sob comando estrangeiro o que as duas empresas descrevem como o maior recurso conhecido de terras raras em argilas iônicas fora da China.

O pagamento será feito em ações: cada papel da Meteoric valerá 0,0207 ação da Lynas, o equivalente a A$ 0,286 — prêmio de 68,4% sobre o fechamento de 30 de setembro. Concluída a troca, os atuais acionistas da Meteoric ficarão com cerca de 5,9% do capital diluído da compradora.

O que está em jogo em Minas Gerais

O Caldeira tem recursos minerais estimados em 128 milhões de toneladas, dos quais 802 mil toneladas de óxidos de neodímio e praseodímio (NdPr) e 41 mil toneladas de óxidos de disprósio e térbio (DyTb) — insumos dos ímãs de alto desempenho que movem carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa.

O estudo definitivo de viabilidade (DFS) do projeto projeta produção média de 3.862 toneladas de NdPr e 127 toneladas de DyTb por ano ao longo da vida útil da mina. Para tirar o empreendimento do papel, a Lynas calcula desembolsar mais de US$ 500 milhões e abrirá à Meteoric uma linha de até A$ 110 milhões — sendo A$ 35 milhões logo após a assinatura — para bancar desenvolvimento, despesas da operação e capital de giro até o fechamento.

A companhia afirma ainda que pretende estudar a instalação de etapas do processamento no Brasil, hoje concentradas em suas plantas na Austrália e na Malásia, e manter a equipe atual da Meteoric. A movimentação repete um padrão recente: em abril, a americana USA Rare Earth já havia pago US$ 2,8 bilhões pela mineradora goiana Serra Verde, dona da mina de Pela Ema.

Aprovações e o filtro brasileiro

A transação ainda depende do aval dos acionistas da Meteoric, em assembleia prevista para janeiro de 2027, de autorização judicial e de aprovações regulatórias. Entre elas está uma permissão brasileira específica para a mudança de controle de empresa com direitos minerários sobre minerais críticos e estratégicos — exigência que ganha contorno mais claro agora: o anúncio ocorre cerca de duas semanas depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionar, em 16 de setembro, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei, originada do PL 2.780/2024 — de autoria do deputado Zé Silva (Solidariedade-MG), apresentado em julho de 2024 e enviado ao Planalto em 4 de setembro após tramitar pela Câmara e pelo Senado —, cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, vinculado à Presidência da República, com a atribuição de acompanhar e propor medidas para o setor e de ampliar as etapas de processamento e industrialização desses minerais no país. Se tudo avançar, o negócio entre Lynas e Meteoric deve ser concluído até março.

O conselho da Meteoric recomendou a aprovação por unanimidade, desde que não apareça proposta superior e que um especialista independente confirme o interesse dos acionistas. Tolga Kumova, maior acionista individual, com cerca de 6,7% do capital, sinalizou voto favorável nas mesmas condições.

Operações desse tipo não passam incólumes pelo crivo nacional: a compra da Serra Verde levou o Cade a investigar se a operação deveria ter sido notificada ao órgão, e o avanço estrangeiro sobre minerais estratégicos já reacendeu o debate sobre soberania no STF e no Congresso.

O pano de fundo é a corrida por alternativas à China, que responde por cerca de 70% da produção mundial de terras raras e concentra o refino e a fabricação de ímãs — dependência que levou Estados Unidos e União Europeia a montar reservas estratégicas. O Brasil tem a segunda maior reserva do planeta, com ocorrências em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas, e preços que vão de cerca de € 55 por quilo de NdPr a mais de € 850 por quilo de térbio.