O Brasil guarda a segunda maior reserva mundial de terras raras — mais de 20 milhões de toneladas, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) —, mas sua produção atual é quase simbólica.
Em 2024, o país exportou apenas 20 toneladas desses minerais estratégicos, enquanto a produção global chegou a 390 mil toneladas, com a China respondendo por cerca de dois terços do total.
Diante desse cenário, os Estados Unidos apostam no Brasil como alternativa ao domínio chinês, e o governo Lula tenta estruturar um marco regulatório que atraia investimentos sem abrir mão do controle nacional.
Essenciais para fabricar desde carros elétricos a mísseis guiados, os 17 elementos de terras raras aparecem dispersos em areias, argilas e rochas e precisam ser separados por processos industriais complexos e caros — aí está o principal gargalo brasileiro.
“A gente consegue fazer isso em escala laboratorial. O que nós não temos — e quase ninguém no mundo tem — é essa tecnologia de processamento em escala industrial”, explicou um representante do setor em coletiva virtual. Para avançar, são necessárias infraestrutura, pesquisa tecnológica e energia mais barata e abundante, segundo Julio Nery, diretor de assuntos de mineração do Ibram.
Disputa geopolítica pelo solo brasileiro
Em abril, a empresa americana USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde, operadora da única mina em produção no país, localizada em Goiás, por cerca de US$ 2,8 bilhões (R$ 14 bilhões). A compra acendeu um debate constitucional sobre soberania, com ação no STF e o próprio governo federal questionando a legalidade do acordo. Washington também assinou memorando com o estado de Goiás para incentivar a mineração. A Austrália participa via Foxfire Metals, enquanto a China mantém participação em projeto na Amazônia, segundo o Ibram.
A Câmara dos Deputados aprovou neste mês um projeto de lei que concede incentivos fiscais ao setor privado e reforça o controle estatal, dando ao Executivo poder de veto sobre acordos com empresas estrangeiras por razões de “segurança econômica ou geopolítica”. A legislação foi construída às pressas: o governo queria chegar ao encontro com Trump em Washington com um marco regulatório em mãos como instrumento de negociação. O setor privado reagiu mal à cláusula de veto, e a expectativa é que o texto seja modificado no Senado, onde ainda aguarda data de votação.
No plano diplomático, o presidente Lula convidou Donald Trump a se “associar” com o Brasil na exploração de terras raras, dias após encontro na Casa Branca. Ao mesmo tempo, deixou claro que “ninguém, a não ser o Brasil, será dono da nossa riqueza” — buscando equilibrar abertura ao capital externo com controle soberano dos recursos naturais.
O potencial do país pode ser ainda maior do que as estimativas atuais sugerem. O Serviço Geológico do Brasil identificou concentrações expressivas de terras raras em um corredor que percorre São Paulo, Paraná e Santa Catarina, o que pode ampliar consideravelmente as reservas conhecidas.
Mesmo assim, o caminho até se tornar um fornecedor relevante no mercado global é longo. Para escalar a produção, o país precisará desenvolver tecnologia de processamento em escala industrial, atrair infraestrutura especializada e garantir fornecimento de energia competitivo. A Índia, terceira maior reserva mundial com 6,9 milhões de toneladas, enfrenta desafios semelhantes e ainda não conseguiu ocupar posição de destaque no setor.