Doze sociedades médicas e científicas do Brasil e do exterior assinaram um pedido formal para que a Anvisa proíba sem exceções a manipulação, a venda e o uso dos implantes hormonais manipulados, vendidos como chips da beleza.
O documento, batizado de Carta do Rio de Janeiro, foi divulgado nesta quinta-feira (1º) no 20º Congresso Mundial de Menopausa, na capital fluminense, e cobra que a proibição valha para qualquer finalidade, estética ou terapêutica.
O que as entidades querem proibir
Assinam a carta a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Febrasgo, a Sociedade Internacional da Menopausa e as sociedades brasileiras de Diabetes, Urologia, Mastologia, Cardiologia, Hepatologia e Reprodução Humana, além da Abeso, da Sobrac e da ABEMSS.
O grupo pede que a agência vete manipulação, estoque, distribuição, comercialização, publicidade e uso desses implantes, independentemente da indicação, e que a medida venha acompanhada de fiscalização mais rigorosa, reforço na notificação de efeitos adversos e responsabilização de quem lucra na cadeia.
A objeção não se limita ao produto. A carta descreve um modelo comercial estruturado: produção em escala, formação de estoques, cursos para treinar médicos prescritores e marketing nas redes sociais. Esse mercado já havia sido mapeado em reportagem que mostrou implantes produzidos por cerca de R$ 150 revendidos por mais de R$ 5 mil, sob a mesma indefinição regulatória que a nova carta tenta encerrar.
Dois anos de vaivém na Anvisa
A disputa começou em outubro de 2024, quando a Anvisa suspendeu manipulação, venda, propaganda e uso de todos os implantes hormonais manipulados. Depois de recursos de médicos, clínicas e farmácias, a agência recuou no mês seguinte e trocou a proibição total por regras restritivas.
Hoje seguem vetados os implantes com esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos para estética, ganho de massa muscular e desempenho esportivo, mas a manipulação continua liberada em condições específicas para outras finalidades. Uma investigação do g1 publicada em maio mostrou como essa janela permitiu que implantes com ação anabolizante seguissem sendo oferecidos para menopausa, endometriose e síndrome dos ovários policísticos, sem evidência robusta nessa forma de uso. Documentos obtidos pela reportagem registram implantes comprados a cerca de R$ 200 e revendidos a pacientes por valores de R$ 4 mil a R$ 12 mil.
Por que o implante preocupa mais que o comprimido
Inserido sob a pele, ele libera hormônio por meses e nem sempre pode ser retirado por completo. Diante de uma reação adversa, não há como interromper na hora, ao contrário de comprimidos, géis e adesivos, que permitem ajustar ou suspender a dose.
As entidades apontam a falta de estudos sobre qualidade farmacêutica, estabilidade, esterilidade e velocidade de liberação hormonal, e sobre segurança a longo prazo: risco cardiovascular, hepático, trombose, AVC e efeitos nas mamas e no endométrio. A gestrinona, presente em algumas formulações, pode causar acne, excesso de pelos, queda de cabelo, alteração da voz e aumento do clitóris, às vezes de forma irreversível.
Os riscos não são hipotéticos: a Justiça de São Paulo já condenou um médico depois que uma paciente teve infarto renal e trombose 45 dias após receber um implante hormonal. “Muitas dessas pacientes chegam internadas e não sabem exatamente o que foi implantado. E não dá para simplesmente suspender”, disse à reportagem o endocrinologista Clayton Macedo, doutor pela Unifesp.
As signatárias separam as coisas: não são contra a terapia hormonal, eficaz e segura quando bem indicada e acompanhada. Em mulheres, o único uso de testosterona amparado por consensos internacionais é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, e a Anvisa já alertou em agosto que a reposição não é rotina, diante do aumento de notificações de efeitos adversos. Implantes contraceptivos registrados, como o de etonogestrel, ficam fora do pedido.