A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou nesta sexta-feira (7) que as notificações de efeitos adversos ligados à testosterona aumentaram nos últimos anos no Brasil, com pico em 2024, e reforçou que a reposição do hormônio em mulheres não é obrigatória.
Segundo a agência, é falsa a ideia difundida nas redes sociais de que mulheres têm déficit natural do hormônio e precisariam repô-lo rotineiramente, principalmente na menopausa.
Esquema de pellets lucra com promessas sem respaldo científico
Em maio, o g1 revelou um esquema em que médicos e farmácias de manipulação vendem implantes hormonais — os chamados pellets — prometendo mais disposição, libido e qualidade de vida às pacientes. Nos consultórios e no Instagram, profissionais que se autodenominam especialistas oferecem o procedimento também como tratamento para menopausa, síndrome dos ovários policísticos e endometriose.
O hormônio mais usado nesses implantes é a testosterona, que na prática funciona como anabolizante. Embora esteja naturalmente presente no organismo feminino, ela circula em concentrações muito menores do que nos homens, o que torna sua reposição uma decisão clínica pontual, não uma correção de rotina. A única indicação reconhecida é o transtorno do desejo sexual hipoativo, e mesmo assim as diretrizes recomendam a versão em gel, não o implante subcutâneo.
O uso anabolizante desses pellets é proibido pela Anvisa, mas brechas na fiscalização mantêm o mercado em circulação. Médicos contornam a proibição vendendo o implante como tratamento para doenças ginecológicas sem qualquer evidência de que funcione para isso. Na véspera do alerta, a Anvisa já havia determinado a apreensão de um lote falsificado do Nebido, injeção de testosterona usada em homens com hipogonadismo, reforçando a atenção da agência sobre medicamentos à base do hormônio.
Dados de notificação e riscos do uso indevido
Levantamento de farmacovigilância da Anvisa mostra aumento nas notificações de eventos adversos ligados a anabolizantes nos últimos anos, com pico em 2024. Testosterona e somatropina, hormônios controlados e com indicações terapêuticas já aprovadas, respondem por mais de 90% dos registros. Segundo a agência, o crescimento não indica necessariamente mais casos de dano: reflete também maior conscientização de pacientes e profissionais e a expansão das plataformas eletrônicas de notificação, como o sistema VigiMed.
Usar testosterona sem indicação clínica, em doses acima das recomendadas ou combinada a outras substâncias eleva o risco de acne, alopecia, alterações no fígado, dependência psíquica, problemas cardiovasculares e dislipidemia — distúrbio nos níveis de gordura no sangue que favorece a formação de placas nas artérias. O alerta segue um padrão já adotado pela Anvisa contra a soroterapia intravenosa, outro tratamento sem respaldo científico que viralizou nas redes com promessas de energia e rejuvenescimento.
Na menopausa, falta outro hormônio
Segundo a ginecologista Di Bella, o hormônio que efetivamente cai na menopausa é o estradiol, não a testosterona. “A testosterona não é um hormônio que deve ser reposto rotineiramente no climatério e na menopausa. Não existe indicação”, afirma. Ela acrescenta que valores baixos do hormônio são esperados nesse período e não representam, por si só, um problema a ser tratado.