A Justiça de São Paulo condenou um médico e sua clínica por negligência e imperícia após uma paciente sofrer infarto renal, trombose e edema pulmonar agudo — tudo atribuído, por perícia judicial, a um implante hormonal inserido 45 dias antes.
Outras duas mulheres relatam trajetórias semelhantes: uma desenvolveu toxicidade hepática grave mesmo tendo alertado o prescritor sobre doença rara no fígado; outra ficou meses sem diagnóstico enquanto as enzimas hepáticas dobravam a cada dois dias.
Nenhuma das três assinou termo de consentimento. Nenhuma recebeu protocolo escrito. E os pellets seguem sem farmacovigilância estruturada da Anvisa.
Da infecção urinária ao infarto renal
Ana Karina Porto Oliveira, decoradora paulistana de 53 anos, foi à clínica DBJ Saúde da Mulher em maio de 2022 com uma queixa de infecção urinária recorrente. Saiu convencida a colocar um implante hormonal. Em 45 dias, ganhou 12 quilos, desenvolveu acne intensa e deu entrada num pronto-socorro com trombose e infarto renal.
A perícia judicial detalhou o que havia no implante: gestrinona em três cápsulas (25 mg, 25 mg e 35 mg), testosterona, estradiol, estriol e metformina — um antidiabético, embora Ana Karina jamais tenha sido diagnosticada com diabetes. O médico emergencista foi direto ao ver a fórmula: “A gestrinona potencializa o efeito da testosterona. Você estava com uma bomba-relógio dentro do corpo.”
Ana Karina tem apenas um rim, sequela de hidronefrose na infância, e havia alertado o prescritor. Ficou dez dias internada. Meses depois, o excesso hormonal espessou o endométrio e causou hemorragias. Durante uma histeroscopia, ela teve edema pulmonar agudo e parou de respirar. Passou dois dias na UTI.
A sentença da 2ª Vara Cível do TJSP, assinada em agosto de 2025, reconheceu imperícia e negligência e condenou o ginecologista Bruno Santiago Jacob e a clínica ao pagamento de indenização por danos morais e estéticos — a perícia confirmou virilização, engrossamento do pescoço e alteração da voz. Três anos depois do implante, Ana Karina ainda faz ressonância do rim pelo menos duas vezes por ano.
Doença hepática declarada, toxicidade ignorada
Gabriela Cabral tinha 40 anos e PFIC 3 — uma doença hepática genética rara que pode levá-la à fila de transplante — quando procurou um médico que se apresentava no Instagram como nutrólogo, sem especialização registrada. Ela informou sobre a condição desde a primeira consulta. Recebeu implante de testosterona de 100 mg e injeções semanais de tirzepatida de origem não rastreável.
No segundo ciclo de seis meses, as taxas hepáticas dispararam. O hepatologista Raymundo Paraná diagnosticou toxicidade hepática induzida pelo implante. Gabriela ficou internada por três dias com vômitos e desidratação severa. Ao longo de 2025, gastou R$ 35 mil com o tratamento — cada unidade do pellet custou R$ 5.500. Nunca assinou consentimento nem recebeu protocolo por escrito.
Uma terceira paciente, que pediu anonimato, buscou ajuda em Salvador para tratar cansaço e falta de disposição. Recebeu implante com gestrinona, testosterona, ocitocina e NADH. Semanas depois, formou-se um abscesso no local de inserção. Em seguida, as enzimas do fígado dobravam a cada dois dias — o quadro chegou à biópsia hepática. Em quase dois anos de recuperação, ela engordou mais de 20 quilos. A melhora só veio quando o pellet se esgotou no organismo.
A gestrinona não é reconhecida como opção terapêutica pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) nem pela Febrasgo. Os implantes hormonais também não têm aprovação da Anvisa para finalidades estéticas ou terapêuticas convencionais, são manipulados sem bula oficial e não permitem controle da taxa de liberação nem ajuste de dose — lacuna detalhada pela própria sentença do TJSP.
“Nunca veio nenhum médico ao hospital”
Os três casos chegaram ao hepatologista Raymundo Paraná, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e criador, em 2012, do primeiro ambulatório de hepatotoxicidade do Brasil. Ele integra um consórcio internacional com Brasil, Argentina, Espanha e Uruguai para monitorar casos de toxicidade por implantes hormonais.
Paraná descreve um padrão sem variação: o prescritor desaparece no momento da crise. “Já pedi a famílias que chamassem o médico ao hospital, porque a responsabilidade é dele. Nunca veio nenhum”, afirma. No caso de Ana Karina, a sentença detalha que Jacob não foi ao hospital; na contestação, tentou atribuir o infarto renal a uma dissecção arterial espontânea — tese afastada pela perita judicial. “Quando consigo identificar o que estava dentro de um implante, mando para a Anvisa. Mas há uma blindagem muito grande nesse mercado”, diz Paraná.
Nenhuma das três mulheres assinou um termo de consentimento informado — prática que o Estatuto do Paciente, sancionado em abril, agora torna direito legal exigível em qualquer procedimento médico no Brasil.
Os casos também não são isolados no mercado mais amplo. Uma investigação do Tropiquim revelou como médicos transformaram os implantes hormonais em um negócio bilionário sustentado por uma brecha regulatória — o mesmo mercado em que um pellet produzido por R$ 150 chega ao paciente por mais de R$ 5 mil.
Após a repercussão do caso, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) confirmou investigar o ginecologista Bruno Santiago Jacob. As apurações tramitam sob sigilo, sem indicação de fase ou das condutas específicas apuradas. Jacob, por sua vez, afirmou que sua prática é pautada pela “individualização das condutas” e que “intercorrências acontecem em qualquer área da medicina”.
