A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou nesta sexta-feira (24) que a retatrutida, substância experimental estudada contra obesidade e diabetes tipo 2, não tem registro nem aprovação para venda em nenhum país do mundo.
Apesar de resultados considerados promissores em estudos clínicos, a fabricante Eli Lilly ainda não concluiu o programa de pesquisas nem solicitou o registro do medicamento a órgãos reguladores, incluindo a própria Anvisa.
Por isso, qualquer produto oferecido hoje como retatrutida é irregular — e já foi encontrado em sites, redes sociais e apreensões nas fronteiras brasileiras.
Estudos avançados, mas aprovação ainda distante
Um estudo publicado em junho na revista The Lancet acompanhou 930 adultos com diabetes tipo 2 que receberam doses semanais de retatrutida ou placebo por até 80 semanas. Entre os pacientes que receberam a dose mais alta, a redução média do peso foi de 28,3% — mais de quatro vezes o resultado do grupo placebo.
Mais de 65% desses participantes deixaram de se enquadrar nos critérios de obesidade definidos pelo índice de massa corporal. A pesquisa também identificou melhora no controle da glicose e possíveis benefícios em apneia do sono e osteoartrite no joelho, segundo dados divulgados pela fabricante.
Tripla ação hormonal
A retatrutida é descrita como uma substância de tripla ação: além de imitar os hormônios GLP-1 e GIP, que aumentam a saciedade e ajudam a controlar a glicose, ela também age sobre o receptor de glucagon, mecanismo que pode elevar o gasto de energia do corpo. A semaglutida, do Ozempic e Wegovy, atua só sobre o GLP-1; a tirzepatida, do Mounjaro, age sobre GLP-1 e GIP. A aprovação desses medicamentos não vale para a retatrutida, que precisa de estudos e registro próprios.
Mercado paralelo cresce enquanto substância segue sem registro
Mesmo sem autorização em nenhum país, canetas anunciadas como retatrutida já circulam no mercado paralelo. No Paraguai, uma empresa chegou a promover a substância em março, durante um evento com influenciadores brasileiros. Nos três primeiros meses de 2026, o valor de canetas emagrecedoras irregulares apreendidas na fronteira brasileira já superou R$ 11 milhões — mais do que o total registrado em todo o ano de 2025.
O risco não é hipotético: um paciente que comprou uma caneta vendida como retatrutida precisou de atendimento hospitalar por tremores, hipoglicemia e taquicardia, e análise da Unicamp encontrou compostos tóxicos de degradação em amostras do mercado clandestino.
Enquanto a retatrutida segue sem previsão de chegada às farmácias, quem busca uma opção legal e mais barata já encontra alternativa: a Anvisa incluiu o Ozivy, semaglutida sintética da EMS, na Lista de Medicamentos de Referência, abrindo caminho para genéricos. A Anvisa reforça que a população não deve comprar nem usar, em nenhuma hipótese, medicamentos sem registro sanitário.
