O Conselho Federal de Medicina (CFM) proibiu o uso do polimetilmetacrilato (PMMA) como substância preenchedora por médicos em todo o Brasil e, agora, quer que a Anvisa também bana o produto do mercado nacional.
A Resolução nº 2.461/2026 entra em vigor nesta terça-feira (2) e veta tanto procedimentos estéticos quanto reparadores — com única exceção para o tratamento de lipodistrofia em pacientes com HIV/aids em unidades credenciadas pelo SUS.
A morte de Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, 48 anos, após aplicação de PMMA nos glúteos em uma clínica em São Paulo, foi o gatilho para a medida.
O presidente do CFM, José Hiran Gallo, foi direto ao anunciar o próximo passo: “Vamos marcar reunião com presidente da Anvisa para banir das prateleiras esse produto.” Para ele, a medida é “uma decisão ética e de extrema segurança para a população”.
O que é o PMMA e por que ele preocupa
O polimetilmetacrilato (PMMA) é uma substância sintética composta por microesferas suspensas em gel, usada como preenchedor permanente. Diferentemente de substâncias reabsorvíveis, como o ácido hialurônico, o PMMA não é absorvido pelo organismo — o que amplia o risco de complicações a longo prazo.
Nos últimos anos, o produto foi amplamente aplicado em procedimentos estéticos para aumento de volume em glúteos e rosto. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) também se manifestou a favor da proibição nesta semana, lamentando mais uma morte associada ao uso da substância.
Anvisa mantém posição divergente
A agência regulatória não acompanha o CFM. Em nota, afirmou que os dois produtos à base de PMMA registrados no Brasil — quando usados conforme as indicações aprovadas — “apresentam perfil de risco-benefício aceitável” e que “não se identificou, até o momento, a necessidade de adoção de medidas adicionais às já implementadas”.
A Anvisa realizou inspeções nas unidades dos dois fabricantes com registro ativo no país e constatou cumprimento das Boas Práticas de Fabricação. Ao longo de 2025, conduziu processo de reavaliação do perfil risco-benefício do PMMA, considerando literatura científica e experiências regulatórias internacionais. A agência reforça que a indicação e a aplicação do produto devem ser restritas a médicos legalmente habilitados e devidamente treinados.
A morte de Roseli expôs um padrão repetido: paciente passa pelo procedimento, sente mal-estar horas depois — dor, coração acelerado, dificuldade para respirar — e não sobrevive. Sua filha relatou à Polícia Civil que os sintomas surgiram na manhã seguinte à aplicação, realizada nos glúteos e na parte posterior das coxas.
O caso não é isolado. Em fevereiro de 2025, o Fantástico mostrou complicações graves causadas pelo uso do PMMA. Entre eles, o da influenciadora Mariana Michelini, que fez harmonização facial em 2020 acreditando que a substância era ácido hialurônico. Meses depois, ela começou a sentir dores intensas e inchaço progressivo.
Conflito regulatório que se repete
O embate entre CFM e Anvisa sobre o PMMA segue um padrão já visto antes: quando o CFM regulamentou o fenol para uso médico, a Anvisa manteve sua proibição estética — o mesmo conflito entre as duas autarquias que agora se repete com o preenchedor permanente.
A Anvisa vem apertando gradualmente os limites do produto: comunicado em 2022, resolução 4424/2023 proibindo farmácias de manipulação de comercializar preenchedores intradérmicos e novo alerta em março de 2026. A agência incentiva profissionais e pacientes a notificarem eventos adversos, o que alimenta o processo de reavaliação contínua — mas, por ora, sem recuo na posição oficial.
