Saúde

Médicos transformam implante hormonal irregular em negócio bilionário

Dispositivo fabricado por R$ 150 é vendido por até R$ 5 mil; pacientes relatam danos renais, cardíacos e hepáticos
Implantes hormonais anabolizantes irregulares Brasil: médico com dispositivo, vigilância falha, paciente prejudicado

Um implante hormonal que custa R$ 150 para ser produzido chega ao paciente por mais de R$ 5 mil — e o médico que prescreve é frequentemente o mesmo que treina outros profissionais e mantém vínculos com a farmácia que fabrica o produto.

Essa é a engrenagem de um mercado que movimenta bilhões no Brasil usando uma brecha regulatória: o uso de implantes com fins anabolizantes é proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Anvisa, mas a cadeia opera em zona cinza, fora do rastreamento de medicamentos industrializados.

Enquanto órgãos de fiscalização investigam e o Ministério Público Federal pede suspensão dos produtos sem resposta, pacientes acumulam efeitos colaterais graves — de danos renais e problemas cardíacos a intoxicações hepáticas com internação em UTI.

Brecha regulatória que vale bilhões

O mercado de farmácias de manipulação faturou R$ 11,3 bilhões entre 2019 e 2023, crescimento de 17,1% — acima do PIB brasileiro no período, segundo a Anfarmag. Boa parte desse avanço foi puxada pelos implantes: as vendas de testosterona cresceram quase cinco vezes nos últimos dez anos, conforme dados da Anvisa.

A legislação magistral permite manipular qualquer substância aprovada pela Anvisa independentemente da via de administração. Assim, testosterona, gestrinona e oxandrolona — substâncias com uso essencialmente anabolizante — podem ser transformadas em pellets subcutâneos sem estudos específicos sobre como o hormônio é liberado nessa forma. No caso da gestrinona, o registro na Anvisa está suspenso há 20 anos.

Em 2024, a agência chegou a suspender os implantes para avaliar riscos e avançar na regulamentação. A proibição durou 34 dias: foi derrubada sob pressão do setor, que levou o tema ao Senado Federal. A saída encontrada foi vedar apenas a prescrição para fins estéticos — e o mercado simplesmente reposicionou os produtos como tratamentos para endometriose, SOP, lipedema e menopausa, sem respaldo em evidências científicas consolidadas.

Escala industrial disfarçada de magistral

A lei exige produção sob encomenda para cada paciente. Na prática, o Ministério Público Federal denunciou que grandes fornecedores operam como plantas industriais. Notas fiscais da Elmeco, uma das maiores farmácias do setor, registram compras de lotes de 400 unidades padronizadas de gestrinona e testosterona. A pressão regulatória já resultou em medidas concretas: a Anvisa suspendeu lotes de ésteres de testosterona e nandrolona de um estabelecimento com graves irregularidades sanitárias — os mesmos compostos centrais nesse mercado.

Ana Karina Porto pagou R$ 4 mil por um implante da Elmeco — fabricado por cerca de R$ 150 — após procurar o ginecologista Bruno Jacob por infecção urinária em 2022. Ela vive com apenas um rim desde a infância, fator de risco ignorado na prescrição. Pouco depois, foi internada com infarto renal por trombose e perdeu parte do órgão. Perícia judicial confirmou relação direta com os hormônios implantados; o médico negou e recorreu até a segunda instância.

A venda da insegurança feminina como estratégia de negócio

As redes sociais são a principal vitrine desse mercado — e as mulheres, o alvo declarado. Em cursos analisados pela reportagem, um médico com quase meio milhão de seguidores orienta alunos a abordar o marido da paciente, sugerindo que ela manteria relações sexuais “por respeito” — e que o implante seria a solução. Para o CFM, qualquer mercantilização da medicina nesses moldes é proibida.

O modelo conecta prescrição, treinamento e fornecimento numa cadeia fechada. O médico Luiz Paulo de Souza Pinto, que se apresenta como presidente da Sociedade Brasileira de Hormonologia — especialidade não reconhecida —, oferece cursos em estádios de futebol patrocinados pela Bio Meds, farmácia ligada à sua própria holding. Bruno Jacob, que atendeu Ana Karina, foi aluno de Luiz Paulo e aparece em vídeo elogiando os produtos da empresa. Em março de 2026, a Anvisa flagrou a Bio Meds manipulando hormônios em grande volume sem prescrição prévia e sem controle de matérias-primas.

A Unikka, farmácia investigada pela Polícia Federal pela manipulação de tirzepatida em escala compatível com insumos para 20 milhões de doses, segundo a Anvisa, também atua no mercado de implantes hormonais — indicando que o mesmo padrão se repete em diferentes produtos e cadeias.

Para o endocrinologista Clayton Macedo, da Unifesp, o mercado cresceu tanto às escuras que se tornou um problema de saúde pública. Sem bulas, sem estudos de farmacocinética e sem rastreabilidade, pacientes chegam a consultórios com acne, engrossamento de voz e danos cardíacos — ou são internadas em UTI com intoxicação hepática e infarto renal. O MPF pediu à Anvisa a suspensão dos implantes no ano passado; até agora, não obteve resposta.

escrito com o apoio da inteligência artificial
este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
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