A partir da 0h de 1º de outubro, todo embarque de carne bovina do Brasil para a China passa a pagar uma sobretaxa de 55%. O anúncio foi feito nesta quarta-feira pelo Ministério do Comércio chinês, em seu site oficial.
O gatilho é o esgotamento da cota anual brasileira, atingida em 29 de setembro. Somada à alíquota padrão de 12%, a nova taxa leva a tributação de importação a 67% sobre tudo o que exceder o limite.
Como a sobretaxa foi acionada
A regra está no comunicado nº 87, publicado em 2025 pelo governo chinês: quando a cota específica de um fornecedor chega a 100%, a tarifa adicional entra em vigor no terceiro dia seguinte e incide sobre a alíquota de importação já vigente. Com a cota completada em 29 de setembro, o prazo cai em 1º de outubro.
O mecanismo já tinha precedente: em junho, a China aplicou a mesma sobretaxa de 55% à carne bovina australiana, depois que os embarques da Austrália também completaram 100% da cota anual atribuída pelo país a Pequim.
O teto brasileiro do ano foi fixado em 1,106 milhão de toneladas — volume consumido bem antes do fim do calendário. O aperto já era visível em julho, quando frigoríficos reduziram abates ao ver a cota anual quase esgotada.
A cota do Uruguai não resolveu
Havia uma saída no radar: durante encontro com o presidente uruguaio Yamandú Orsi em Nova York, o Uruguai autorizou o Brasil a usar o excedente da própria cota de carne bovina na China. Dias antes, Lula havia anunciado que o vizinho cederia parte do seu limite, mas, segundo a Reuters, representantes do setor afirmam que Pequim não aceitou a transferência nem para 2026 nem para o ano seguinte — e o Ministério do Comércio chinês não se pronunciou publicamente sobre os pedidos brasileiros.
A tentativa não é nova: em entrevista ao g1, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, afirmou que a entidade já havia buscado viabilizar uma divisão semelhante para 2026, recusada pelo governo chinês. Agora, a discussão ganha novo peso com a entrada de mais frigoríficos brasileiros no mercado chinês — na terça-feira (29), a China autorizou a Supremo Carnes, de Carlos Chagas (MG), e a Masterboi, de Canhotinho (PE), a exportar carne bovina ao país, segundo o Ministério da Agricultura, ampliando a disputa pela mesma cota.
O que está em jogo para 2027
Maior compradora da carne bovina brasileira — em 2025 o país importou 1,68 milhão de toneladas do produto brasileiro, cerca de 48% de todo o volume exportado pelo Brasil, num total de US$ 8,9 bilhões dentro dos US$ 18,03 bilhões vendidos ao exterior —, a China já definiu a cota para o próximo ano: 1,128 milhão de toneladas, ante 1,106 milhão em 2026. Mas o limite deve se esgotar bem mais cedo, segundo Perosa.
A diferença em relação a este ano é que o setor pode se antecipar: a cota de 2026 só foi anunciada no fim de 2025, o que deixou pouco tempo para pecuaristas e frigoríficos se organizarem. Com o novo limite já conhecido, produtores devem disputar espaço na cota antes mesmo de ela entrar em vigor — a previsão é que os abates comecem ainda em outubro e os embarques, em novembro, para que a carne chegue à China em janeiro de 2027, já que a viagem de navio entre os dois países leva de 40 a 45 dias.
Se as vendas se concentrarem no início do ano, a tendência é que os negócios entre os dois países percam ritmo no restante de 2027 — o que também depende do apetite chinês: os estoques de carne bovina no país estão elevados, assim como a produção local de carne suína, segundo Perosa. A Abiec discute agora com o governo brasileiro a divisão da cota entre as empresas, debate que ganha força com a entrada de novos frigoríficos autorizados a exportar.
No curto prazo, o efeito é uma reta final de ano com o acesso ao principal mercado encarecido em 55 pontos percentuais — condição que vale para qualquer carga despachada acima do limite já cumprido.
Já em maio, a Abiec projetava queda de até 10% nas exportações do ano por causa do sistema de cotas agora responsável pela sobretaxa — cenário que a tarifa adicional de outubro tende a confirmar no fechamento de 2026.