A carne bovina brasileira começou a pagar nesta quinta-feira (1º) uma tarifa total de 67% para entrar na China: a alíquota regular de 12% somada a uma sobretaxa de 55% que passa a valer porque o Brasil esgotou a cota anual de exportação fixada pelo país asiático.
O limite de 1,106 milhão de toneladas previsto para 2026 foi atingido antes do fim do ano, e o efeito recai sobre o maior comprador do produto brasileiro — o Brasil responde por mais de 40% da carne bovina importada pela China.
A sobretaxa chega depois de uma tentativa frustrada de contornar o limite: o Brasil pediu o uso do excedente da cota uruguaia e teve o pedido recusado para 2026 e também para 2027.
Abates em outubro para embarcar em novembro
Segundo a Agência Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) discute com as empresas antecipar a produção: os abates poderiam ser feitos ainda em outubro, com embarques em novembro.
Como a viagem marítima entre os dois países leva de 40 a 45 dias, a carne chegaria à China em janeiro de 2027, já dentro da nova cota, de 1,128 milhão de toneladas — volume que representantes do setor estimam esgotar em março ou abril. O ritmo das compras chinesas, porém, também pesa no cálculo.
A entidade retomou ainda com o governo a proposta de dividir a cota de 2027 entre os frigoríficos, de modo a distribuir os embarques ao longo do ano e evitar que poucas empresas concentrem o volume disponível.
O aperto começou antes do limite
Pela avaliação da Abiec, a restrição já se fazia sentir meses antes do esgotamento oficial: frigoríficos reduziram as vendas à China e precisaram buscar compradores em outros mercados. Na terça-feira (29), o país asiático liberou duas novas unidades brasileiras para exportar carne bovina, uma em Minas Gerais e outra em Pernambuco.
Uma década de dependência
Entre 2016 e 2025, o Brasil embarcou 8,2 milhões de toneladas de carne bovina para a China, em negócios de US$ 42,3 bilhões. O volume anual saltou de 164,9 mil toneladas para 1,6 milhão de toneladas no período — concentração que agora joga o efeito da tarifa direto no fluxo de caixa dos frigoríficos.
A conta também desce até o produtor: em junho, a simples expectativa de esgotamento da cota já derrubava o preço da arroba do boi gordo em Mato Grosso.
Proteção ao mercado interno chinês
As cotas foram adotadas pela China como barreira ao avanço das importações, e a sobretaxa não vale só para o Brasil: outros fornecedores também são atingidos. As compras externas chinesas de carne bovina cresceram de menos de 1,5 milhão de toneladas em 2018 para cerca de 2,8 milhões nos anos recentes, num mercado que hoje convive com preços mais baixos e maior oferta doméstica.
Para 2026, a Abiec projeta recuo de cerca de 10% nas exportações brasileiras de carne bovina frente a 2025, num cenário que inclui restrições da União Europeia — a mesma estimativa que a entidade já havia apresentado em maio.