O governo de Donald Trump deve apresentar ao Brasil uma nova proposta de negociação sobre o tarifaço “nas próximas semanas”. O prazo foi informado nesta quarta-feira (30), em nota conjunta do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
O anúncio veio depois de os ministros Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa se reunirem em Milwaukee, nos Estados Unidos, com o representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer, à margem da reunião ministerial de comércio do G20. Do encontro também resultou a criação de um grupo de trabalho específico para tratar das tarifas e de temas não tarifários da relação comercial entre os dois países — canal que deve discutir a proposta americana assim que ela for enviada.
Encontro dá sequência à conversa entre Lula e Trump
Pela nota dos dois ministérios, a reunião em Milwaukee foi desdobramento direto do contato recente entre Lula e Trump, no qual os presidentes orientaram as respectivas equipes a retomar as tratativas. O encontro com Greer dá sequência a um processo reaberto no fim de agosto, quando Brasil e EUA voltaram a negociar o tarifaço por videoconferência.
O tamanho do que está em jogo ajuda a explicar a insistência brasileira: os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do país, atrás somente da China. Integrantes do governo repetem que a orientação é negociar até que os dois lados cheguem a um consenso.
Atualmente, parte das exportações brasileiras enfrenta duas sobretaxas aplicadas pelos EUA desde julho: uma tarifa adicional de 25% com base na Seção 301 da legislação comercial americana, e uma sobretaxa de 10% a 12,5% para países enquadrados na política americana de combate ao trabalho forçado. Segundo o Mdic, as duas medidas atingem parcelas das exportações brasileiras e seguem em vigor enquanto as tratativas avançam.
Argumento técnico rejeitado nas rodadas anteriores
Nas negociações que tentaram evitar as tarifas, representantes brasileiros afirmaram que os argumentos técnicos apresentados foram desconsiderados pelos americanos — leitura que levou Brasília a tratar as medidas como políticas, e não comerciais. O diálogo já havia travado antes: em julho, às vésperas de o tarifaço entrar em vigor, o Brasil tentou uma negociação de última hora que não impediu a aplicação das tarifas.
O relógio da OMC já está correndo
Em paralelo à mesa bilateral, o Brasil abriu um pedido de consultas na Organização Mundial do Comércio, sustentando que os EUA lhe dão tratamento diferente do concedido aos demais parceiros comerciais. Washington respondeu ao organismo dizendo estar à disposição para discutir o tema.
Ainda assim, não houve até agora qualquer sinal de reversão do tarifaço, segundo diplomatas brasileiros ouvidos pelo g1.
A reunião da semana passada em Genebra, na sede da OMC, disparou um cronômetro de 60 dias para que os dois países cheguem a um entendimento. Sem acordo no prazo, qualquer uma das partes pode pedir a abertura de um painel, levando a disputa a julgamento.
China pede espaço, EUA barram
O governo chinês pediu formalmente para participar do processo na OMC, e os Estados Unidos se manifestaram contra a entrada dos chineses. A movimentação mostra que a disputa em torno das tarifas brasileiras já é acompanhada de perto por outros grandes parceiros comerciais.