Economia

Inadimplência bancária chega a 5% e supera recorde histórico às vésperas das eleições

Índice medido pelo Banco Central é o maior desde 2011 e resiste ao pacote de R$ 150 bilhões anunciado pelo governo
Torre do Banco Central e app do Desenrola simbolizam a taxa de inadimplência bancária recorde no Brasil

A taxa média de inadimplência bancária no Brasil chegou a 5% em agosto, ante 4,9% em julho, segundo dados divulgados nesta terça-feira (29) pelo Banco Central. É o maior patamar da série histórica revisada pela autoridade monetária, iniciada em março de 2011.

O índice reúne operações de crédito com atraso superior a 90 dias de pessoas físicas e de empresas. O novo recorde chega em plena corrida eleitoral, quatro meses depois de o governo lançar o Desenrola 2.0.

Governo responde com R$ 150 bilhões em dívidas para renegociar

Na semana passada, o Planalto anunciou uma nova rodada do Desenrola, desenhada para alcançar R$ 150 bilhões em dívidas com atraso de 2 a 4,5 anos. O mecanismo prevê que a União compre as carteiras de crédito das instituições financeiras com deságio de 90%, o que reduz o desembolso público a R$ 15 bilhões.

O alvo são as linhas mais caras do orçamento doméstico: cartão de crédito parcelado e rotativo e crédito pessoal sem consignação em folha. Segundo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, entram na conta débitos de até R$ 10 mil.

A aposta não é inédita. O Novo Desenrola Brasil, mencionado no anúncio da nova rodada, foi lançado em maio para atender trabalhadores endividados com renda de até R$ 8.105 — e o indicador de calote seguiu subindo mesmo assim. A pressa do governo em conter o endividamento às vésperas das urnas também não é nova: em abril, o Planalto já havia anunciado um pacote de R$ 78 bilhões com o mesmo objetivo.

O rotativo continua liberando crédito a 445% ao ano

Os próprios números do Banco Central ajudam a explicar por que os programas de renegociação não seguram o indicador: a torneira do crédito caro segue aberta. De janeiro a agosto deste ano, os bancos liberaram R$ 311 bilhões pelo cartão de crédito rotativo, volume que já se aproxima dos R$ 400 bilhões desembolsados em 2025, o maior dos últimos anos.

A modalidade cobra a taxa mais alta do mercado: 445% ao ano em agosto. Para efeito de comparação, o crédito consignado varia de cerca de 24% a 56% ao ano. Na prática, quem recorre ao rotativo paga várias vezes mais pelo mesmo dinheiro — motivo de o cartão ser apontado como um dos grandes vilões do endividamento das famílias.

Os dados do Banco Central mostram ainda o outro lado da equação: os juros cobrados das famílias também subiram em agosto, para uma média de 61,7% ao ano — alta de 1,4 ponto percentual sobre julho e de 2,9 pontos em 12 meses, pressionada principalmente pelo cartão de crédito rotativo e pelo parcelado, que passou a custar 192,1% ao ano, alta de 2,8 pontos no mês. O endividamento das famílias atingiu 49,9% da renda anual em julho, com o comprometimento de renda no pagamento de dívidas em 28,7%. Nesse cenário, a inadimplência das famílias chegou a 8% em agosto, patamar que o Banco Central classifica como o maior da série histórica iniciada em março de 2011. “A taxa de inadimplência está no nível mais elevado da série histórica do Banco Central […] no crédito total, na separação tanto no crédito livre quanto no crédito direcionado e também para pessoas físicas”, afirmou Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas da autoridade monetária. No recorte do crédito com recursos livres — que exclui linhas como financiamento imobiliário e rural —, o atraso acima de 90 dias entre as famílias somou 6,6% da carteira, alta de 0,2 ponto percentual sobre julho, enquanto entre as empresas avançou 0,1 ponto e chegou a 4,3%.

A deterioração fica mais evidente nas modalidades específicas de cartão. A inadimplência do rotativo passou de 65,5% para 66,2% da carteira, e o cartão de crédito como um todo — somando rotativo e parcelado — atingiu o recorde de 10%. No crédito consignado, o atraso ficou em 3,8%, mas no crédito pessoal sem consignação em folha, um dos públicos-alvo do Desenrola, o índice chegou a 11%, e nas operações sem qualquer garantia, a 15,6%. Entre trabalhadores do setor privado, a inadimplência do consignado praticamente dobrou em um ano, de 5,2% em setembro de 2025 para 10,6% em agosto — reflexo da expansão dessa linha de crédito pelo governo em meio a falhas na implementação do desconto automático das parcelas quando o trabalhador muda de emprego.

Rocha ponderou que parte do avanço tem origem contábil: uma mudança recente nos critérios de baixa de créditos deu às instituições financeiras mais flexibilidade para manter no balanço operações com expectativa de recuperação, em vez de registrá-las de imediato como prejuízo — efeito que, segundo estudo do próprio BC, responde por cerca de metade do crescimento observado na inadimplência.

Em abril, a taxa medida pelo BC já havia alcançado 4,4% — recorde da série histórica à época — bem nas vésperas do lançamento do Desenrola 2.0. O tema extrapolou o crédito: a estratégia oficial contra o endividamento inclui também a proibição das apostas online, as bets.