O ministro da Fazenda, Dario Durigan, admitiu nesta segunda-feira (4) que o calendário eleitoral inviabiliza qualquer avanço em medidas de revisão de gastos no Congresso até outubro de 2026.
Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, ele declarou ser “praticamente impossível” apresentar esse tipo de proposta entre maio e outubro — mas defendeu que o debate precisa começar agora para preparar o terreno pós-eleições.
Na mesma data, o governo lançou o Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas focado em famílias com débitos em cartão de crédito e cheque especial.
Ao debater os juros altos, Durigan rechaçou a tese de que o cenário fiscal seja o principal motor da Selic elevada. Para ele, fatores externos — especialmente os efeitos da guerra no Oriente Médio — pesam mais sobre a política monetária do que os gastos públicos.
O Banco Central reduziu recentemente a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, sinalizando cautela diante do ambiente global. O próprio BC já havia alertado que a guerra no Irã pode fechar a janela para novos cortes na Selic — cenário que Durigan usa como âncora para seu argumento sobre os juros.
Sobre o arcabouço fiscal, o ministro foi enfático: as regras adotadas desde 2023 funcionam, não precisam ser substituídas e ainda estão no início de sua vigência. “O arcabouço permite ajustes, funcionou, não envelheceu e ainda está no começo, gerando resultados”, afirmou.
Reformas fiscais esperarão as urnas
Durigan reconheceu que propostas como a revisão de repasses federais podem voltar à pauta — mas apenas após outubro. Antes disso, o governo se concentrará em conter despesas obrigatórias e melhorar a qualidade do gasto sem acender fogueiras políticas no Congresso.
Ele também garantiu que tensões políticas não comprometerão a agenda econômica e reiterou o compromisso de evitar propostas que ampliem despesas sem compensação fiscal.
Desenrola 2.0: acesso simplificado e foco nas dívidas do dia a dia
O novo programa chega em resposta a um quadro crítico. Em abril, 80,4% das famílias brasileiras tinham dívidas ativas — o maior percentual da série histórica —, e 81,7 milhões de adultos estavam com o CPF negativado, transformando o endividamento em pauta central do ano eleitoral.
Na versão 2.0, os bancos assumem diretamente a negociação com os clientes, sem intermediários. O foco são débitos de cartão de crédito e cheque especial, com descontos, juros menores e parcelamento mais longo. O uso do FGTS também está previsto para abater dívidas. O anúncio era esperado: há uma semana, Durigan já havia confirmado o uso do FGTS e prometido o lançamento em dias.
O programa inclui medidas preventivas: educação financeira obrigatória e proibição de apostas online por um ano para quem aderir. Durigan atribuiu o desempenho parcial da primeira versão à retomada dos juros altos, que reverteu boa parte da melhora no endividamento das famílias.
Quanto ao risco inflacionário, o ministro minimizou: “Me parece bem circunscrito”, disse, argumentando que “nem tudo” o que for economizado pelos participantes será convertido em consumo.
