Duas agências de publicidade que atendem governos estaduais do PT foram habilitadas em licitações federais que somam R$ 162,4 milhões, segundo levantamento do Poder360. As concorrências saíram do MEC e do MDS, pastas ocupadas por ex-governadores do Ceará e do Piauí.
A S/A Propaganda, que presta serviços ao governo piauiense e participa da campanha de reeleição de Rafael Fonteles (PT), entrou na concorrência de R$ 140 milhões do Ministério da Educação. A EBM Quintto, com contratos no Ceará, avançou na disputa de R$ 22,44 milhões do Desenvolvimento Social.
Duas disputas, dois estados, os mesmos nomes
A S/A Propaganda ficou em 2º lugar na concorrência nº 90003/2024 do MEC, atrás da DeBrito Brasil e à frente da Calia Y2. As três empresas foram habilitadas e dividem o contrato de R$ 140 milhões em serviços de publicidade.
No Piauí, a agência integra o contrato nº 01/2022 da Coordenadoria de Comunicação Social, prorrogado em fevereiro de 2026 por mais 12 meses, até fevereiro de 2027, com valor global de R$ 19,99 milhões. Em janeiro, Fonteles, o candidato a vice Washington Bandeira (PT), os candidatos ao Senado Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD) e o secretário estadual de Comunicação, Marcelo Nolleto, se reuniram na sede da empresa para iniciar o planejamento de marketing da campanha.
A EBM Quintto Comunicação foi uma das duas vencedoras da concorrência nº 90001/2026 do MDS, voltada a comunicação digital, com valor estimado de R$ 22,44 milhões nos primeiros 12 meses. A agência ficou em 2º na avaliação técnica, atrás da L2W3 Digital, e o processo segue na fase de recursos.
No Ceará, a EBM aparece em contratos de publicidade desde o começo da gestão de Elmano de Freitas (PT): em março de 2023, o estado prorrogou por R$ 75 milhões um vínculo que incluía a empresa; em setembro de 2024, ela foi declarada vencedora de nova concorrência da Casa Civil. Em maio deste ano, o governo publicou termo de reconhecimento de dívida de R$ 324,1 mil por serviços de publicidade do Detran.
O cruzamento entre as pastas
A S/A trabalha para Fonteles, sucessor de Wellington Dias, hoje ministro do Desenvolvimento Social — a pasta que declarou a EBM vencedora. A EBM atende Elmano, sucessor de Camilo Santana, ministro da Educação — a pasta que habilitou a S/A.
O padrão não é exclusivo do PT: em maio, o Tropiquim mostrou que a Cálix Propaganda, ligada ao ex-marketeiro de Flávio Bolsonaro, acumulava R$ 99,2 milhões em contratos federais.
Quem julgou as propostas
No MDS, a subcomissão técnica foi formada por Simone de Castro Holanda, Antônio Olívio dos Santos Maciel Barbosa e Eronides Pereira de Oliveira Neto. Simone é coordenadora-geral de Comunicação Social do ministério e trabalhou de 2015 a 2023 na comunicação do governo do Piauí, então sob Wellington Dias. Em julho de 2019, foi escolhida representante do estado em contratos de publicidade que incluíam a S/A Propaganda.
A composição não foi a sorteada em 11 de maio. Gustavo Alves de Souza, servidor do MDS, deixou o colegiado ao se afastar do cargo para disputar uma vaga de deputado federal pelo PCdoB no Distrito Federal, e foi substituído por Antônio Olívio, que passou pela Secretaria de Comunicação da Presidência e por gabinetes de deputados do PT.
Queixa levou o caso ao TCU
A concorrência do MEC também trocou avaliadores, mas por outro motivo: uma reclamação ao Tribunal de Contas da União sobre possível irregularidade na composição da subcomissão. O ministério substituiu os integrantes que não atendiam aos requisitos legais e, em 7 de outubro de 2025, o TCU considerou a queixa parcialmente procedente e arquivou o processo sem determinações nem recomendações. O novo grupo ficou com Maria do Socorro Pereira Filha, Sérgio Flores de Albuquerque e Nilo Cerqueira da Silva.
A EBM Quintto nega vínculo com a campanha de Elmano e afirma que seus contratos cearenses não tiveram relação com a vitória no MDS. O ministério diz que a licitação seguiu a legislação e o edital e que Simone de Castro Holanda não manteve contato profissional com as concorrentes. O MEC sustenta que o processo foi instruído conforme a lei. Os governos do Piauí e do Ceará e a S/A Propaganda não responderam.