Política

Agência do ex-marketeiro de Flávio Bolsonaro acumula R$ 99 mi em contratos federais

Dois contratos firmados entre 2021 e 2022 seguem vigentes; Marcello Lopes deixou a coordenação de comunicação do senador nesta quarta
Retrato institucional: Flávio Bolsonaro e Marcello Lopes, agência publicidade contratos federais

A agência de publicidade Cálix Propaganda acumulou R$ 99,2 milhões em faturas empenhadas pelo governo federal desde 2022. A empresa pertence a Marcello Lopes, ex-policial civil e amigo pessoal de Flávio Bolsonaro que coordenava os bastidores da pré-campanha do senador à Presidência.

Nesta quarta-feira (20), Lopes anunciou que deixará o comando de comunicação da campanha. A saída coincide com a divulgação dos dados sobre o volume de contratos públicos acumulados pela empresa nos últimos quatro anos.

Dois contratos, dois governos

Os vínculos entre a Cálix e o poder público começaram em dezembro de 2021, ainda na gestão Jair Bolsonaro (PL). O primeiro contrato foi assinado com o então Ministério do Desenvolvimento Regional, sob o comando de Rogério Marinho (PL-RN) — hoje líder da oposição no Senado e coordenador da própria campanha de Flávio à Presidência. O acordo previa repasses de até R$ 55 milhões anuais.

O segundo contrato foi firmado em maio de 2022 com o Ministério da Infraestrutura, então chefiado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), atual governador de São Paulo. A Cálix foi a única participante da licitação. O acordo pode valer até R$ 14,97 milhões por ano e, após renovações sucessivas, tem vigência garantida até 2027.

Pagamentos e pendências no governo Lula

Ambos os contratos foram mantidos e renovados por três termos aditivos durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com serviços que se estenderam até abril de 2026. Juntos, geraram faturas empenhadas de R$ 91,8 milhões — e o atraso nos repasses acrescentou R$ 7,5 milhões em juros e multas ao montante total.

Segundo o Portal de Compras do Governo Federal, a agência recebeu efetivamente R$ 39,7 milhões desde a assinatura dos contratos. Outros R$ 32,9 milhões em notas estão previstos para quitação ainda em 2026, e R$ 26,7 milhões em faturas anteriores aguardam pagamento na fila dos chamados restos a pagar.

Saída dos bastidores da pré-campanha

Marcello Lopes confirmou nesta quarta-feira (20) que deixa a coordenação de comunicação da pré-campanha de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto. O publicitário afirmou que a decisão foi sua e que quer se dedicar à própria empresa. O comando da comunicação passa para o publicitário Eduardo Fischer.

Embora a entrada oficial de Lopes na campanha só estivesse prevista para 1º de junho, ele já atuava nos bastidores da pré-candidatura nas últimas semanas, segundo pessoas próximas à coordenação.

A saída ocorre em meio à turbulência política que se abriu quando o The Intercept Brasil revelou que Flávio pressionou o banqueiro Daniel Vorcaro a financiar com R$ 61 milhões um filme sobre Jair Bolsonaro — episódio que o Tropiquim já havia detalhado em reportagem sobre as pressões ao banqueiro.

A troca de comando na comunicação acontece no momento em que a própria The Economist avaliou que o escândalo com Vorcaro pode comprometer a candidatura de Flávio à Presidência.