A fiscalização da propaganda paga nas eleições de 2026 tem um ponto cego: os anúncios eleitorais no Kwai não podem ser auditados de forma abrangente, conclui estudo do NetLab, laboratório da UFRJ obtido com exclusividade pelo g1.
Dos 11 critérios de transparência extraídos das normas do TSE, cinco não foram atendidos e três ficaram em cumprimento parcial ou não puderam ser verificados. O levantamento foi encerrado em 16 de setembro e será apresentado ao tribunal.
O que a biblioteca de anúncios deixa de fora
Na plataforma, a consulta só funciona pelo nome do anunciante. Quem fiscaliza precisa saber de antemão quem pagou pela peça — o inverso do que prevê o artigo 27-A da Resolução 23.610/2019, que exige busca por palavras-chave e termos de interesse.
O efeito prático é direto: um anúncio com pedido de voto ou menção à urna eletrônica contratado por quem não está autorizado a impulsionar conteúdo eleitoral tende a passar em branco. E a biblioteca exibe apenas as peças que o próprio Kwai classificou como político-eleitorais, embora a resolução defina que o enquadramento não depende da plataforma.
Falta também a API prevista na mesma norma, interface que permitiria coletar automaticamente conteúdo, gastos, alcance, público atingido e responsáveis pelo pagamento. Sem ela, resta coleta manual ou raspagem de tela — métodos que não garantem que todo o acervo foi capturado.
Faixas largas no lugar de números
Para despesas de até R$ 5 mil por anúncio, os valores aparecem em intervalos de R$ 500; acima desse patamar, as faixas chegam a R$ 1 mil ou R$ 5 mil. Uma peça de R$ 10 e outra de R$ 500 caem na mesma categoria, o que embaralha a auditoria de gastos de campanha e a comparação de preços cobrados dos anunciantes.
A imprecisão se repete no alcance: entre 26 de agosto e 16 de setembro, a maioria dos anúncios verificados trazia apenas a indicação de “menos de 5 milhões de impressões”. A exigência do tribunal é informar com precisão o número de pessoas atingidas, e impressões não são pessoas — o mesmo usuário pode ver a peça várias vezes.
Público-alvo declarado, audiência real desconhecida
A biblioteca mostra os critérios usados para direcionar as peças — idade, gênero, região, marca do celular, sistema operacional —, mas não o perfil de quem efetivamente recebeu a mensagem. Dados sobre segmentação por interesses, recurso que a plataforma oferece aos anunciantes, também não apareceram nas peças examinadas.
Para a diretora do NetLab, Marie Santini, essas lacunas impedem verificar como os dados de usuários são usados para distribuir propaganda política e se os limites legais sobre informações sensíveis estão sendo respeitados. Ela defende que o Kwai suspenda a veiculação de anúncios políticos até adequar suas ferramentas.
Empresa e tribunal reagem
O Kwai sustenta que seu Plano de Conformidade Eleitoral para 2026 foi revisado e aprovado pelo TSE e que a extração automatizada de dados está disponível mediante pedido no Portal de Solicitação de Aplicação da Lei. O tribunal informou que avalia o relatório e tomará providências nos termos da resolução de propaganda eleitoral. A empresa participou, em 16 de julho, de reunião com o presidente do TSE, Nunes Marques, sobre desinformação no pleito.
O problema não é exclusivo da plataforma: levantamento anterior do próprio NetLab já apontou que o Brasil fica atrás da União Europeia e do Reino Unido em transparência de anúncios políticos, com a Meta concentrando quase sozinha o mercado formal do setor no país. TikTok e Meta são os próximos alvos da mesma análise.