Um método criado no Brasil promete tornar o diagnóstico de tuberculose mais barato e viável fora dos grandes centros urbanos.
Batizado de RRTB, o teste dispensa centrífuga refrigerada e cabine de segurança biológica — equipamentos que hoje limitam o exame padrão-ouro da doença a laboratórios altamente estruturados.
A tecnologia nasceu de parceria entre Embrapa, UFJF e Fhemig, recebeu carta-patente do INPI e já foi validada em rotina laboratorial, embora ainda dependa de submissão à Anvisa.
O que muda na bancada do laboratório
Mesmo com a existência de testes moleculares rápidos, a cultura de amostras clínicas — o método de Petroff — segue como exame padrão-ouro para acompanhar o tratamento, confirmar a cura e identificar resistência da bactéria aos medicamentos. O gargalo é a estrutura que ele exige.
Uma alternativa já conhecida, o método de Ogawa-Kudoh, havia eliminado a centrifugação ao usar um swab para descontaminar a amostra. Mas funciona apenas com escarro e depende de um meio de cultura com pH ácido, o que inviabiliza seu uso em fluidos biológicos estéreis, como líquido pleural, líquido ascítico e líquor.
A virada está no pH
O RRTB contorna essa limitação ao combinar o swab com o cultivo no meio Löwenstein-Jensen, o mais empregado e o de menor custo no país. O diferencial é uma solução neutralizadora própria, à base de ácido cítrico, citrato de amônio e citrato de sódio, aplicada entre a descontaminação e a semeadura.
“O diferencial da inovação é permitir o uso de um meio de cultura com pH mais adequado ao crescimento da Mycobacterium tuberculosis”, afirma Ronaldo Rodrigues da Costa, pesquisador da Fhemig que desenvolveu a técnica em seu doutorado na Faculdade de Medicina da UFJF. No Hospital Universitário da instituição, antes eram necessárias técnicas distintas para cada tipo de material clínico.
Para a professora Isabel Cristina Gonçalves Leite, que orientou o trabalho, o impacto principal é o alcance: “Trata-se de uma tecnologia adaptada a partir de metodologias já existentes, com custo reduzido e potencial de utilização em países em desenvolvimento, onde a TB possui grande relevância epidemiológica”.
Os números da validação e o elo com os rebanhos
Um estudo-piloto com 77 amostras comparou o RRTB às técnicas tradicionais. Frente ao Petroff, a sensibilidade foi de 90,91% e a especificidade de 94,34%; frente ao Ogawa-Kudoh, 94,74% e 92,45%. O ganho mais expressivo apareceu na taxa de contaminação do cultivo: 1,30%, contra 2,60% e 6,50% dos métodos convencionais.
A etapa seguinte reuniu sete laboratórios de referência de Minas Gerais e 593 pares de amostras, que confirmaram a equivalência diagnóstica. A fase foi liderada pela UFJF, com subcoordenação da Embrapa, avaliação de Funed e Fhemig e financiamento da Fapemig, elevando a maturidade da tecnologia ao nível 8 da escala TRL.
Tuberculose que chega pelo leite cru
Na validação, os pesquisadores estenderam o teste à tuberculose extrapulmonar e à forma zoonótica, causada pela Mycobacterium bovis, detectável em amostras clínicas de animais e em alimentos — a transmissão ao ser humano está associada ao consumo de produtos feitos com leite cru. “Quando pensamos na tuberculose sob a perspectiva de Uma Só Saúde, não podemos olhar apenas para o ser humano”, diz Márcio Roberto Silva, pesquisador da Embrapa Gado de Leite.
Publicado em periódico internacional em 2022, o método foi escolhido em 2024 pela britânica Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene como um dos quatro destaques mundiais apresentados em evento do Dia Mundial da Tuberculose. Agora o Critt, centro de inovação da UFJF, procura empresas dispostas a licenciar, produzir e distribuir o kit em escala comercial.