Um surto de sepse que atingiu 65 recém-nascidos no Brasil entre 2013 e 2014, causando a morte de 15 prematuros, revelou a presença de uma bactéria emergente e de difícil identificação que ainda pode ser confundida com outros microrganismos em exames laboratoriais.
O Phytobacter diazotrophicus ainda é frequentemente identificado como Pantoea em muitos laboratórios, tanto no Brasil quanto no exterior, segundo o microbiologista brasileiro Marcelo Pillonetto. A confusão ocorre porque sistemas automatizados de identificação e testes bioquímicos frequentemente classificam erroneamente espécies do gênero.
Origem do surto
O surto ocorreu de outubro de 2013 a maio de 2014, em quatro estados brasileiros — Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul — e foi associado à nutrição contaminada utilizada em terapias intravenosas hospitalares. Inicialmente, as amostras indicaram a presença da bactéria Pantoea, mas o microrganismo era, na verdade, Phytobacter diazotrophicus — sendo este o primeiro relato de infecção por essa espécie em humanos.
A identificação correta ocorreu após testes realizados pelo Laboratório Central do Paraná (Lacen/PR), parte da rede oficial do SUS, em investigação científica liderada por Pillonetto, em parceria com a Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique (ZHAW).
Desafios diagnósticos
A espécie Phytobacter diazotrophicus foi descrita originalmente na China, em 2008, em plantações de arroz. Sua capacidade de causar doenças em humanos só foi confirmada após os estudos detalhados no Brasil. Análises posteriores mostraron que genomas bacterianos depositados em bancos de dados internacionais de coleções de culturas de referência estavam, desde 1974, com nomes incorretos.
Mesmo os equipamentos automatizados mais modernos, que utilizam espectrometria de massa, estão presentes em apenas cerca de 10% dos aproximadamente 20 mil laboratórios brasileiros. O sequenciamento genético — técnica mais eficaz — ainda é restrito a laboratórios centrais de pesquisa e a alguns hospitais privados de alta complexidade.
Resistência a antibióticos
O microbiologista destaca que a identificação precisa do Phytobacter é vital, pois o microrganismo tem demonstrado capacidade crescente de adquirir genes de resistência a antibióticos potentes. Estudos no Japão identificaram o gene blaNDM-1, associado à resistência a carbapenêmicos.
Em 2023, houve um surto menor da mesma bactéria em São José dos Pinhais (região metropolitana de Curitiba), em uma clínica de hemodiálise. Quatro pacientes tiveram sepse, mas todos sobreviveram.
A identificação correta da bactéria gerou um alerta entre microbiologistas e levou à distribuição de amostras para cerca de 300 laboratórios no Brasil e no exterior.