Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e do Hospital das Clínicas (HCFMUSP) validaram um teste rápido que identifica, em seis horas, pacientes de UTI colonizados por Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos (ERC), a chamada superbactéria.
O método, testado em estudos publicados em periódicos internacionais, corta até 60 horas do diagnóstico convencional, feito por cultura em laboratório, e reduz o tempo de isolamento precaucional desnecessário no hospital.
Como funciona o teste
A amostra é colhida por swab retal e incubada em caldo nutritivo por seis horas — não dias, como na cultura tradicional. Em seguida, o material passa por um teste imunocromatográfico, similar aos de farmácia para Covid-19 ou gravidez, que aponta se há produção de carbapenemases, enzimas que neutralizam os antibióticos de última linha. No Brasil, a enzima KPC responde pela maioria dos casos.
As ERC reúnem micróbios intestinais comuns, como Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli, que resistem aos carbapenêmicos e são classificadas pela Organização Mundial da Saúde como ameaça de prioridade crítica. No Brasil, infecções por ERC em quadros de sepse já confirmados em laboratório chegam a 63,8% de mortalidade, contra 33,4% em sepses causadas por outras bactérias.
Para o infectologista Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da FMUSP e um dos autores dos estudos, a rapidez, a simplicidade e o baixo custo do exame são o maior trunfo da estratégia. Ele lembra que a resistência bacteriana, somando todos os micro-organismos resistentes, esteve associada a mais de 4,7 milhões de mortes no mundo em 2021, segundo a OMS.
Nem toda velocidade vira menos contágio
Apesar de reduzir o tempo de resposta, o teste não diminuiu de forma estatisticamente significativa o número de pacientes que adquiriram a bactéria durante a internação. Salomão não trata o dado como fracasso: para ele, o exame resolve uma etapa do problema, não todas. Um quarto estudo, sobre fatores de risco, reforça esse ponto — a colonização já presente na chegada à UTI se liga a internações recentes e transferências entre hospitais, enquanto a aquisição durante a internação está associada a antibióticos de amplo espectro, sonda urinária e à proporção de pacientes já colonizados na mesma unidade.
Caminho para o SUS
Mais barato que exames moleculares como o PCR, o teste pode gerar economia semanal entre US$ 2,4 mil e US$ 3,9 mil a cada 100 leitos de UTI, ao reduzir dias de isolamento desnecessário. Salomão vê espaço para incorporação ao SUS, principalmente em hospitais com grande circulação dessas bactérias, mas o caminho depende de regularização na Anvisa e avaliação da Conitec antes de qualquer compra ou distribuição.
“Nenhum teste controla a transmissão sozinho. O resultado precisa estar ligado à higiene das mãos, às precauções de contato, à limpeza do ambiente, ao dimensionamento das equipes e ao uso racional de antibióticos”, afirma o infectologista.