Pesquisadores no Brasil estão empenhados em diminuir drasticamente o custo da terapia celular CAR-T, que pode chegar a R$ 3 milhões por paciente. O objetivo é tornar o tratamento acessível ao Sistema Único de Saúde e à rede privada, reduzindo o valor em até 80%.
Centros como o Hemocentro de Ribeirão Preto, Hospital Israelita Albert Einstein e INCA lideram projetos para nacionalizar a produção, enfrentando desafios técnicos e estruturais. A expectativa é concluir os estudos em 2026.
O que é a terapia CAR-T?
A terapia CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) consiste em coletar linfócitos T do paciente, modificá-los geneticamente em laboratório para que reconheçam marcadores presentes em tumores, como o CD-19, e reintroduzi-los no organismo. Esses linfócitos reprogramados passam a atacar as células doentes de forma direcionada, sendo considerados um dos tratamentos mais promissores da oncologia.
Panorama atual no Brasil
No país, a CAR-T já tem aprovação da Anvisa para certos tipos de leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. No entanto, pacientes dependem de importação da tecnologia e de processos judiciais para obter cobertura dos planos de saúde. O tratamento envolve envio das células para laboratórios no exterior e pode demorar mais de 40 dias, tempo inviável para casos avançados.
Iniciativas nacionais
O Hemocentro de Ribeirão Preto, em parceria com a USP e o Instituto Butantan, já iniciou estudo clínico de fase 1/2 com 81 pacientes e tratou 20 em uso compassivo, com resultados semelhantes aos internacionais. O Ministério da Saúde apoia o projeto com R$ 100 milhões, buscando ofertar o tratamento ao SUS por até 15% do valor atual.
O Hospital Israelita Albert Einstein já fabrica as células em sua própria estrutura e o INCA, em colaboração com a Fiocruz, trabalha para viabilizar a produção em larga escala.
Desafios técnicos e avanços
A produção das células exige ambientes controlados e rigorosos processos de assepsia, comparáveis à fabricação de medicamentos. Um dos principais gargalos é a obtenção dos vetores virais, que atualmente são importados e podem custar até US$ 1,2 milhão por lote. A Fiocruz pretende adaptar sua fábrica para produzir esses insumos localmente, enquanto o Hemocentro de Ribeirão Preto já nacionalizou todo o processo. O INCA desenvolve alternativas sem o uso de vírus, utilizando fragmentos de DNA.
Efeitos colaterais e riscos
A terapia pode causar síndrome de liberação de citocinas, com inflamação aguda, febre e, em casos graves, neurotoxicidade. Os pacientes precisam estar próximos a centros com UTI, mas os eventos são geralmente transitórios e manejáveis. Outro efeito é a imunossupressão temporária, exigindo reposição de imunoglobulina.
Futuro e requisitos para o SUS
A expectativa é concluir os estudos até 2026, inicialmente para leucemia linfoblástica B e linfoma difuso de grandes células B resistentes a tratamentos anteriores. Pesquisas para doenças autoimunes, como lúpus, também estão em andamento. Para a CAR-T ser realidade no SUS, é preciso aprovação da Anvisa, produção local de vetores, infraestrutura laboratorial, incorporação via Conitec e apoio federal contínuo.
Segundo Rodrigo Calado, “já conseguimos controlar toda a cadeia de produção no Brasil, da fabricação do vetor à aplicação no paciente”. Bonamino ressalta a importância estratégica do avanço: “Estamos construindo capacidade tecnológica, científica e industrial no Brasil. Isso nos dá autonomia e reduz a dependência de insumos internacionais”.
Como participar dos estudos
O ingresso em estudos clínicos deve ser solicitado pelo médico do paciente junto aos centros de pesquisa.