Um levantamento do NetLab (UFRJ) em parceria com o Minderoo Centre for Technology and Democracy, de Cambridge, aponta que o Brasil oferece menos transparência de anúncios políticos nas redes sociais do que a União Europeia e o Reino Unido.
No país, a transparência de Facebook e Instagram foi classificada como insuficiente, enquanto TikTok e X sequer disponibilizam dados sobre publicidade — no ano das eleições de 2026.
Meta concentra o mercado formal de anúncios políticos
O relatório “Data Not Found: Transparência de redes sociais para a integridade da informação” comparou o acesso a dados de 15 plataformas no Brasil, na União Europeia e no Reino Unido. Na análise específica de publicidade, entraram 14 delas — o Bluesky ficou fora por não veicular anúncios.
No Brasil, Google, TikTok e X dizem não aceitar publicidade político-eleitoral, o que deixa a Meta como praticamente a única plataforma submetida às regras de transparência da Justiça Eleitoral. Para Débora Salles, coordenadora-geral de pesquisa do NetLab UFRJ, isso criou uma espécie de “monopólio da publicidade político-eleitoral” nas redes da empresa.
Conteúdo político sem selo escapa do radar
Segundo a pesquisadora, isso não significa que outras plataformas nunca veiculem conteúdo político: sem ferramentas de consulta equivalentes à Biblioteca de Anúncios da Meta, esses casos deixam de ser rastreáveis de forma sistemática. Não é a primeira vez que o NetLab UFRJ documenta os limites dessa biblioteca: em pesquisa anterior, o mesmo laboratório identificou 860 anúncios fraudulentos nas plataformas da Meta entre janeiro e março de 2026, e Salles já alertava que a omissão dos dados de alcance impede saber quantas pessoas viram cada peça, como mostrou a reportagem sobre golpes com Minha Casa Minha Vida no Facebook.
Faixas de gasto dificultam fiscalização
Mesmo nos anúncios corretamente classificados como políticos, a Meta não informa valores exatos: os gastos aparecem em faixas — um anúncio pode ter recebido entre R$ 1 mil e R$ 1.499, sem que se saiba se foram R$ 1.010 ou R$ 1.490. Para Salles, não há impedimento técnico que justifique o formato: trata-se de uma escolha da plataforma.
A Justiça Eleitoral já exige que empresas de impulsionamento político mantenham repositórios de consulta, mas as obrigações mais fortes valem só para conteúdo classificado como político-eleitoral. A opacidade pesa ainda mais em um país apontado como o mais vulnerável à desinformação entre 21 nações pesquisadas.
A diferença de tratamento entre Brasil e Europa não é acaso: desde maio, a autoridade irlandesa investiga a Meta por dark patterns no Facebook e Instagram, sob o mesmo Regulamento de Serviços Digitais que obriga a empresa a oferecer mais transparência no continente. Para os pesquisadores, a saída passa por regras comuns e mecanismos interoperáveis de acesso aos dados entre países e plataformas.