Um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment aponta que as terras indígenas na Amazônia funcionam como barreiras de proteção à saúde pública, mas apenas quando a floresta está preservada. A pesquisa analisou dados de saúde e ambientais de nove países ao longo de 20 anos, revelando que a conservação florestal e o reconhecimento legal dos territórios são cruciais para reduzir doenças respiratórias e malária.
Os benefícios à saúde diminuem em áreas degradadas ou sem reconhecimento legal, segundo os pesquisadores.
Relação entre floresta, saúde e proteção indígena
A floresta amazônica regula o clima, a qualidade do ar e abriga espécies que mantêm o equilíbrio ecológico. Sua degradação eleva o risco de doenças transmitidas por vetores, como malária, e reduz recursos naturais essenciais para comunidades indígenas. O desmatamento e as queimadas aumentam poluentes e alteram o ciclo da água, favorecendo o surgimento de doenças.
O estudo destaca que áreas com mais de 45% de cobertura florestal e terras indígenas reconhecidas legalmente apresentam menos casos de doenças respiratórias e zoonoses. Já em regiões fragmentadas ou sem reconhecimento, o efeito protetor se perde, elevando a incidência de enfermidades ligadas à fumaça e à poluição.
Dados do estudo e impactos regionais
Foram analisados mais de 28 milhões de registros de 21 doenças entre 2000 e 2019, abrangendo Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Guiana Francesa, Equador, Suriname e Guiana. Quatro em cada cinco casos estavam relacionados à inalação de fumaça das queimadas, enquanto a malária respondeu por mais de 90% das doenças transmitidas por vetores.
Mais de 530 mil km² de floresta queimaram ao menos uma vez em duas décadas, afetando a qualidade do ar, especialmente nos anos de secas severas (2005, 2007 e 2010). O aumento das partículas finas (PM2,5) foi associado a picos de internações hospitalares por problemas respiratórios.
Reconhecimento legal e desafios para a conservação
O status legal das terras indígenas foi apontado como decisivo: territórios oficialmente reconhecidos mostraram efeito protetor mais claro, com menor incidência de doenças respiratórias e zoonoses. Já terras não reconhecidas tendem a estar em áreas mais degradadas, com maior exposição à fumaça e desmatamento.
Apesar dos benefícios, essas áreas enfrentam ameaças constantes, como desmatamento ilegal e invasões. Em municípios com pouca área indígena e paisagens fragmentadas, a floresta remanescente não consegue reduzir a poluição, aumentando riscos à saúde pública.
Limitações e recomendações dos pesquisadores
Os autores reconhecem limitações, como diferenças na qualidade dos dados de saúde, subnotificação e incertezas nas estimativas de poluição por satélite. No entanto, o padrão geral se mantém: florestas contínuas e terras reconhecidas reduzem riscos de doenças.
O estudo reforça que proteger territórios indígenas contribui para ecossistemas equilibrados e para a saúde planetária, conceito que integra saúde humana, animal e ambiental. “Florestas mais íntegras podem filtrar fumaça e limitar contatos entre humanos, animais e vetores”, afirma Júlia Rodrigues Barreto, da USP. A proteção desses territórios pode ser decisiva para reduzir poluentes e melhorar a saúde na Amazônia.