Nem todo grilo faz “cri-cri”. Uma análise de 107 espécies de grilos arborícolas da família Oecanthidae identificou várias linhagens que abandonaram o canto ao longo de milhões de anos — e outras que perderam a audição.
O trabalho, publicado no Journal of Systematics and Evolution, integra a tese de Lucas Denadai de Campos, pós-doutorando do Instituto de Biociências da USP, segundo reportagem de Emmanuelita Emmanuel para o Jornal da USP.
O som do grilo nasce de um atrito mecânico. Na parte de baixo da asa direita fica a fileira estridulatória, uma série de microdentículos alinhados; na asa esquerda, uma saliência que o pesquisador compara a um “calinho”, o plectro central. Quando o macho fecha as asas, uma estrutura raspa na outra.
Harpa e espelho funcionam como ressonadores e ampliam o resultado. Já a audição não fica na cabeça: os tímpanos ficam nas pernas dianteiras e servem tanto para localizar parceiros quanto para detectar predadores.
Cantores surdos e ouvintes silenciosos
Para reconstruir essa história, os pesquisadores compararam tímpanos internos e externos, harpa, espelho, fileira estridulatória e o comprimento relativo da asa anterior em espécies de todas as subfamílias de Oecanthidae, além de grupos externos aparentados. Um modelo matemático alimentado com fósseis de quatro subfamílias e a árvore de máxima credibilidade de clado (MCC) mapeou as mudanças.
O resultado: a linhagem que antecedeu as espécies analisadas tinha o aparato completo. Depois vieram as perdas, interdependentes, e com elas fenótipos intermediários — os “ouvintes silenciosos”, que não produzem som mas escutam, e os “cantores surdos”, que emitem som sem ouvir.
O tímpano voltou a se desenvolver em algumas espécies. As estruturas de canto, nunca. “Quando olhamos na árvore de parentesco entre as espécies, nenhum grupo que acabou perdendo a comunicação acústica voltou a cantar ao longo dos milhões de anos”, afirma Campos.
Quando o silêncio vira conversa
Maior exposição a predadores e mudanças de hábitat estão entre os fatores que podem ter empurrado esses insetos para o silêncio. E o que se perdeu em volume parece ter sido compensado por outro canal: a sinalização vibratória, feita com a vegetação ou com o próprio corpo.
“Por exemplo, o macho bate as perninhas anteriores ou usa os palpos, que são estruturas que ajudam na alimentação, para batucar na folha”, descreve o pesquisador. Os cantores surdos, sem ressonadores, também emitem em volume baixo, para curtas distâncias, e geram vibrações.
Quatro cantos para um acasalamento
Entre as espécies que mantiveram a voz, o repertório é detalhado: um chamado para atrair a fêmea, um segundo canto de corte quando ela se aproxima, um terceiro durante a cópula e ainda uma melodia pós-cópula, que a entretém enquanto ocorre a fecundação — já que a fêmea pode comer o espermatóforo transferido pelo macho. O canto também serve para espantar predadores.
Os extremos aparecem em espécies brasileiras. A Aphonodiacanthus chlorops, descrita recentemente em um pequeno fragmento de mata na cidade de São Paulo, não tem asas nem tímpanos. A Tafalisca elongata, que ocorre da Guiana Francesa ao Pará, tem asas anteriores longas, mas sem as veias modificadas para produzir som.
O estudo teve apoio da Unesp de Botucatu, do Museu Nacional de História Natural de Paris, do Museu de Zoologia da USP e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Para Campos, o grupo virou um modelo: o panorama encontrado nos grilos de árvores e arbustos “se mostra ser o mesmo de todos os grilos”.