Ciência

Cientistas criam camundongos com metade do cérebro humano

Animais sobrevivem e mantêm comportamento normal, mas testes revelam diferenças sutis de coordenação e memória
Camundongo de laboratório e modelo de cérebro humano ilustram pesquisa com camundongos com cérebro humano

Pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, criaram camundongos vivos com boa parte do cérebro formada por neurônios humanos, em estudo publicado nesta terça-feira (16) na revista Nature.

Os animais continuam se comportando como camundongos comuns — andam, comem e exploram o ambiente —, mas o tecido humano implantado cresceu, conectou-se ao sistema nervoso do animal e passou a funcionar de forma organizada.

Uma lacuna aberta por engenharia genética

A técnica começou por retirar, e não por adicionar. Por meio de engenharia genética, os pesquisadores impediram que embriões de camundongo desenvolvessem o córtex cerebral e o hipocampo — estruturas ligadas a memória, raciocínio, controle dos movimentos e organização de lembranças. Sem elas, os animais nascem com cerca de metade do volume cerebral normal, mas sobrevivem porque regiões mais internas do cérebro, responsáveis por funções básicas como respiração e equilíbrio, permanecem intactas.

Foi nesse espaço vazio que a equipe implantou organoides cerebrais humanos — pequenos aglomerados de tecido nervoso cultivados em laboratório a partir de células-tronco adultas reprogramadas, a mesma base tecnológica usada em pesquisas brasileiras recentes sobre estímulo à produção de neurônios. Em três meses, o tecido humano cresceu quase cinco vezes e passou a ocupar mais de 90% do espaço correspondente ao córtex do camundongo, com diversidade de neurônios semelhante à observada no desenvolvimento cerebral humano.

Exames mostraram que os neurônios humanos não apenas cresceram: desenvolveram prolongamentos que se conectaram ao sistema nervoso do animal, algumas fibras chegando até a medula espinhal, e exibiram atividade elétrica organizada — sinal de que o tecido passou a participar de circuitos nervosos reais.

Comportamento de camundongo, com pistas de função humana

Apesar da grande quantidade de tecido humano, os camundongos não passaram a exibir comportamentos humanos: continuam andando, comendo e reagindo a estímulos como qualquer animal da espécie. Em testes específicos de coordenação motora e memória espacial, porém, os pesquisadores notaram desempenho intermediário entre camundongos normais e camundongos sem córtex cerebral — indício de que o tecido humano assumiu parte das funções que normalmente caberiam ao córtex do animal.

O modelo também foi testado em um cenário ligado à paralisia cerebral: os pesquisadores submeteram os animais a uma privação temporária de oxigênio, simulando complicações que podem ocorrer durante o parto e causar lesões cerebrais em bebês. Após a lesão, os camundongos com tecido humano passaram a andar de forma diferente, alterando o apoio das patas no chão — mostrando que o modelo permite acompanhar como uma lesão afeta os circuitos nervosos.

A expectativa é que a plataforma sirva para investigar doenças hoje difíceis de estudar diretamente no cérebro humano, como epilepsia, deficiência intelectual e esquizofrenia — tema que pesquisadores da Unicamp já vêm explorando ao associar a falta de uma enzima na gestação à origem do transtorno. No futuro, a estratégia poderá testar tratamentos capazes de proteger ou recuperar neurônios humanos antes que uma lesão cause danos permanentes.

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