Uma pesquisa do Instituto Semesp, divulgada nesta quarta-feira (16), mostra que o Brasil enfrenta uma crise silenciosa na educação básica: entre 2015 e 2023, o número de professores idosos mais que dobrou, enquanto os docentes de até 24 anos caíram 31,1%.
O levantamento aponta que a baixa remuneração e as condições de trabalho adversas afastam os jovens da carreira, ampliando o risco de um apagão de professores no ensino médio nas próximas décadas.
Salários baixos e jornada pesada afastam os jovens
Entre 2015 e 2023, o total de professores do ensino médio no Brasil cresceu 6,6%. O número, porém, esconde um desequilíbrio: docentes de até 24 anos caíram de cerca de 17 mil para 12 mil (-31,1%), enquanto os professores com 60 anos ou mais saltaram de 18 mil para 37 mil, alta de 104,5%.
Segundo a pesquisa do Instituto Semesp, a remuneração pouco competitiva é um dos principais fatores. Em 2025, dados da RAIS mostram que um professor do ensino médio ganhava em média R$ 6,5 mil por mês — 20% menos que a renda de outros profissionais com ensino superior completo, de R$ 8,1 mil. Em disciplinas como sociologia, a média salarial cai para R$ 4.695.
O cenário salarial tem pano de fundo político recente: em maio, a Câmara aprovou o novo piso de R$ 5.130 para o magistério — valor que, mesmo após o reajuste, ainda fica bem abaixo dos R$ 6,5 mil de média salarial no ensino médio.
Jornada de trabalho pesada
Além do salário, as condições de trabalho pesam contra a permanência de jovens na carreira. O indicador de esforço docente do Inep mostra que, em 2025, 41,4% dos professores do ensino médio davam aula para 50 a 400 alunos, em dois turnos, em uma ou duas escolas e em duas etapas de ensino diferentes.
Sem reposição, taxa de renovação pode cair para 0,17 em 2040
Para medir a capacidade de reposição dos quadros, o Instituto Semesp criou a Taxa de Renovação Docente, que relaciona o número de professores de até 24 anos ao de docentes com 60 anos ou mais. Taxas acima de 1 indicam mais jovens do que idosos na profissão; quanto menor o índice, maior o alerta.
A projeção do instituto indica que, em 2040, essa taxa pode cair para 0,17 em média — ou seja, apenas um professor jovem para cada seis docentes prestes a se aposentar. Em números absolutos, seriam cerca de 10,7 mil professores com até 24 anos diante de 61,9 mil com 60 anos ou mais.
A falta de perspectiva de carreira também pesa na decisão dos jovens brasileiros. Enquanto no Brasil a trajetória salarial do magistério é achatada, na Coreia do Sul a remuneração anual sobe de US$ 37,8 mil no início da carreira para US$ 104,8 mil no auge, e na Austrália vai de US$ 57,5 mil a um teto de US$ 93 mil.
A crise, porém, não é só demográfica. A Prova Nacional Docente de 2025 revelou que apenas 45% dos professores de Matemática atingiram nível de proficiência — sinal de que falhas na formação também afastam novos talentos da profissão.