O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, durante evento em Minas Gerais, que o SUS vai oferecer de graça as canetas emagrecedoras à base de semaglutida.
O anúncio aconteceu no mesmo dia em que o governo confirmou reajuste de 15% no Bolsa Família, mas a promessa depende ainda de três etapas: aprovação da Conitec, definição do impacto orçamentário e um protocolo clínico de acesso.
Três obstáculos antes da liberação
Hoje, o SUS não oferece nenhum medicamento para obesidade — a única alternativa é a cirurgia bariátrica, com fila de anos. O primeiro entrave é a Conitec, comissão que avalia se um tratamento deve entrar na rede pública. O colegiado adiou a discussão sobre a semaglutida em setembro e só volta a se reunir em 7 de outubro, depois do primeiro turno das eleições.
O segundo obstáculo é o custo. Em análise anterior, a própria Conitec estimou impacto de R$ 7 bilhões em cinco anos considerando dose inicial de R$ 727. Com o preço atual, próximo de R$ 400, o acumulado pode chegar a R$ 3,6 bilhões — sem contar que o tratamento tende a ser contínuo, já que a obesidade é doença crônica.
Por fim, falta um protocolo clínico que defina quem teria direito ao remédio gratuito. Um projeto-piloto do Ministério da Saúde, iniciado em 26 de junho, acompanha 250 pacientes na fila da bariátrica por dois anos para testar esses critérios. Procurado, o ministério disse apenas que as canetas ‘vão ser implementadas de forma responsável’, sem detalhar prazo ou custo.
Preço caiu, mas incorporação ainda é incerta
A queda da patente da Novo Nordisk sobre a semaglutida, dona do Ozempic e do Wegovy, permitiu a entrada de genéricos nacionais e derrubou o preço das doses iniciais de quase R$ 1 mil para cerca de R$ 300 nas farmácias. O movimento foi puxado por um pedido do Ministério da Saúde à Anvisa para acelerar registros, mas a parceria anunciada com a EMS para produção de canetas próprias do SUS não saiu do papel. Até agosto, a rede pública não distribuía nenhuma caneta emagrecedora e a Conitec já havia rejeitado dois pedidos de incorporação por causa do impacto orçamentário.
Para o médico Neuton Dorenelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a incorporação é necessária, mas precisa ser tratada como política de Estado — e não como decisão de governo em ano eleitoral. Já a pesquisadora Maria Laura Precinotto, da USP, defende que o acesso venha acompanhado de equipes multidisciplinares e um plano nacional contra a obesidade. Promessas anteriores de acesso gratuito às canetas já não se confirmaram, o que reforça a cautela em torno do novo anúncio.