Saúde

OPAS amplia acesso ao lenacapavir contra HIV e inclui o Brasil

Acordo com a Gilead usa fundos regionais para levar a injeção semestral a 14 países fora dos contratos voluntários
Emblema da ONU com bandeira do Brasil ao fundo, simbolizando acesso ao lenacapavir para prevenção do HIV

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) fechou nesta terça-feira (15) um novo acordo com a farmacêutica Gilead Sciences para ampliar o acesso ao lenacapavir, injeção semestral usada na prevenção do HIV, em 14 países da América Latina e do Caribe — entre eles, o Brasil.

A iniciativa recorre aos Fundos Rotativos Regionais da OPAS para viabilizar a compra do medicamento por nações que ficaram fora dos acordos de licenciamento voluntário já firmados pela Gilead, e inclui o compromisso de avançar na transferência de tecnologia para produção local no Brasil.

O novo mecanismo complementa os acordos de licenciamento voluntário que a Gilead já mantém com 24 países da América Latina e do Caribe, dentro de uma estrutura global de acesso que abrange 120 nações. Para o Brasil, o acordo abre uma via alternativa de compra e formaliza o compromisso da farmacêutica em iniciar um processo de transferência de tecnologia, ainda sem prazos ou mecanismos definidos, para viabilizar a produção local do lenacapavir no futuro.

Aprovação no Brasil segue recomendação da OMS

O uso do lenacapavir injetável para prevenção do HIV é aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde janeiro deste ano, para adultos e adolescentes a partir de 12 anos com pelo menos 35 kg em risco de infecção — desde que testem negativo para o vírus antes de iniciar o uso. A decisão seguiu diretriz publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em julho de 2025, que passou a recomendar o medicamento como opção adicional de profilaxia pré-exposição (PrEP) e o classificou como a melhor alternativa disponível depois de uma eventual vacina.

O respaldo técnico vem de estudos publicados no New England Journal of Medicine: em 2024, um ensaio clínico registrou 100% de eficácia na prevenção do HIV entre 2.134 mulheres cisgênero acompanhadas em Uganda e na África do Sul, com resultado tão consistente que o estudo foi interrompido antes do previsto. Um segundo levantamento, com 3.265 pessoas de diferentes gêneros, registrou apenas dois casos de infecção entre os participantes que usaram o medicamento.

Apesar dos resultados, o Unaids alertou que o avanço da prevenção depende da garantia de acesso ao medicamento, cujo custo gira em torno de US$ 40 mil por pessoa ao ano. Segundo o programa da ONU, isso é essencial para cumprir a meta de acabar com a Aids como ameaça à saúde pública até 2030, prevista na Agenda 2030. A urgência é reforçada pelo cenário global: a OMS registrou 1,3 milhão de novas infecções por HIV no último ano, número que evidencia a estagnação dos esforços de prevenção.

Caminho ainda incerto até o SUS

O acordo da OPAS chega em um momento crítico: aprovado pela Anvisa, o lenacapavir ainda depende da precificação pela CMED para que a Conitec possa avaliar sua incorporação ao SUS, etapa sem data definida para começar. Semanas antes, o ministro Alexandre Padilha já havia afirmado que o Brasil chegou a oferecer dez vezes o preço pago por países com perfil econômico semelhante, proposta recusada pela Gilead — impasse que agora ganha um novo capítulo com o acordo via OPAS.

No Brasil, a PrEP oral já está disponível pelo SUS desde 2018, mas mulheres cis não podem usar a modalidade sob demanda: estudos indicam que o medicamento é menos eficaz na mucosa vaginal do que na anal, efeito que pode ser ainda reduzido pelo estrogênio. “Esse é o melhor resultado que já tivemos sobre prevenção”, afirma o infectologista Ricardo Diaz, da Unifesp, que conduz testes do lenacapavir no país.