O Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece nenhuma caneta emagrecedora a pacientes com obesidade, doença que já atinge 25,7% dos adultos brasileiros, segundo o Vigitel. A única alternativa disponível na rede pública é a cirurgia bariátrica, com fila de espera de anos.
O Ministério da Saúde afirma que o tema é prioridade, mas o custo bilionário dos tratamentos com semaglutida e liraglutida barrou dois pedidos de incorporação avaliados pela Conitec no ano passado.
Patente expirada barateia a semaglutida
A situação começou a mudar em março, quando a patente da semaglutida expirou. O fim da exclusividade da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, detentora de Ozempic e Wegovy, abriu caminho para que laboratórios brasileiros fabricassem versões próprias do medicamento a preços mais baixos. Em junho, chegou às farmácias a primeira caneta emagrecedora nacional, a Ozivy, produzida pela EMS.
A queda de preço já é sentida pelo consumidor: um programa de fidelidade da EMS reduziu o valor do Ozivy a R$ 333 por caneta, menos da metade dos R$ 452 cobrados no lançamento. A Anvisa recebeu 18 pedidos de registro de novos medicamentos à base de semaglutida e, em 29 de julho, aprovou outras cinco marcas: Zempneo, Semavy, Orsema, Seemasun e Owozy.
A aprovação da Anvisa não significa chegada imediata às prateleiras: falta a CMED fixar o preço máximo de cada marca, etapa que o Ministério da Saúde pediu para concluir ainda em agosto.
Conitec já negou dois pedidos
No ano passado, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) rejeitou pedidos de incorporação da liraglutida e da semaglutida ao SUS. O motivo foi o impacto orçamentário estimado em mais de R$ 8 bilhões para atender a população elegível.
Novo Nordisk propõe desconto de 59% à Conitec
Em junho, a Novo Nordisk apresentou um novo pedido de inclusão da semaglutida no SUS, agora com desconto de 59% sobre o valor de referência. A proposta restringe o acesso a pacientes com mais de 45 anos, sem diabetes, com obesidade grave e histórico de infarto — um recorte bem mais estreito que o pedido negado em 2024. Segundo a farmacêutica, um estudo mostrou que o medicamento reduz em 20% o risco de morte cardiovascular, infarto e AVC nesse grupo. A Conitec tem até 180 dias para responder.
Enquanto a decisão não sai, o Ministério da Saúde testa a semaglutida em um projeto-piloto batizado Real-Bari, iniciado em um hospital de Porto Alegre (RS). O estudo acompanha 250 pacientes com obesidade grave que já aguardam na fila da bariátrica e recebem o tratamento gratuitamente para avaliar custos e adaptação ao SUS.
Para especialistas da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), o país nunca esteve tão perto de incorporar um medicamento contra a obesidade. Ainda que o acesso inicial seja restrito a poucos perfis de pacientes, a medida é vista como um passo que pode reduzir custos do sistema de saúde ao melhorar a qualidade de vida e a produtividade de quem trata a doença. Já a tirzepatida, presente no Mounjaro, segue fora de cogitação: com patente válida até a próxima década, o tratamento custa entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil por mês.