Um levantamento da plataforma Marias do Bairro, da organização Girl Up Brasil, mostra que candidatas a deputada federal só tiveram mais votos nominais que os homens em 4 dos 2.048 locais de votação da cidade de São Paulo no primeiro turno de 2022.
Os dados, extraídos de microdados do TSE, expõem uma desigualdade que se repete em 2026: das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, apenas 18% são ocupadas por mulheres, embora elas sejam maioria da população brasileira.
Colégio de bairro nobre lidera, presídio e periferia ficam no fim da lista
O Colégio Vera Cruz, na Vila Ida, teve a maior proporção de votos femininos entre os locais de votação da capital: 54,03% dos votos nominais para deputada federal em 2022. Na sequência aparecem o Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros (49,19%), e o Colégio Horizontes, na Vila Madalena (49,14%).
No outro extremo, a E.E. Prof. Jesus José Attab, em Parelheiros, registrou apenas 8,35% de votos para candidatas, seguida pela E.E. Vicentina Aparecida Tamborino, no Jardim Varginha, com 8,90%. No Centro de Detenção Provisória de Pinheiros III, na Vila Leopoldina, os 20 votos nominais registrados foram todos para homens.
Segundo o Mapa da Desigualdade 2025, do Instituto Cidades Sustentáveis, os distritos no topo e na base do ranking têm perfis socioeconômicos distintos. A remuneração média do emprego formal chega a R$ 8.115,83 em Alto de Pinheiros e R$ 5.945,02 em Pinheiros, contra R$ 2.715,41 em Parelheiros e R$ 2.555,03 no Grajaú.
A composição racial e etária também difere: em Pinheiros, 11,1% da população é preta ou parda, ante 56,6% em Parelheiros e 56,8% no Grajaú. Jovens de até 29 anos somam 24% em Pinheiros e mais de 45% nos dois distritos da Zona Sul. Os dados não permitem, porém, concluir que esse perfil explica o comportamento eleitoral, já que o levantamento não considera o perfil das candidatas nem onde concentraram suas campanhas.
Desigualdade nos partidos ecoa nas eleições de 2026
Para Daniela Costa, gerente de Redes e Advocacy da Girl Up Brasil, a sub-representação feminina na Câmara é resultado de barreiras históricas e estruturais, que passam pela forma como os partidos distribuem recursos do fundo eleitoral e treinam suas candidatas. “Os partidos e a forma como dividem os recursos do fundo eleitoral ainda é muito desigual”, afirma.
O padrão identificado em 2022 tende a se repetir neste ano: como mostrou o Tropiquim, as candidaturas a deputado federal caíram 28% nas eleições de 2026, e a proporção de mulheres na disputa segue distante da paridade. O desequilíbrio também aparece longe das urnas: levantamento recente mostrou que mulheres ocupam poucos cargos de comando nas campanhas presidenciais de 2026.
Para Daniela, ampliar a presença de mulheres negras, indígenas, com deficiência, de periferia e jovens no Congresso é essencial para trazer ao debate problemas historicamente deixados de lado. A plataforma Marias do Bairro permite a qualquer eleitor consultar como sua seção votou e comparar o resultado com o de outras regiões — ainda que mulheres sejam 52,84% do eleitorado apto para 2026, maioria que raramente se traduz em votos para candidatas do mesmo gênero.