Um experimento da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mostrou que solos de manguezais intocados, no sistema estuarino Cananéia-Iguape (SP), aumentaram em 6,4 vezes a emissão de metano após seis meses de aquecimento simulado.
O estudo, publicado na revista Atmospheric Environment, aponta que o gás passou a ser liberado com mais intensidade à medida que o oxigênio no solo se tornou mais escasso, favorecendo a decomposição anaeróbica da matéria orgânica.
Para simular o aumento da temperatura, a equipe instalou câmaras de topo aberto sobre trechos do manguezal na Ilha Pai Matos, no sistema estuarino-lagunar de Cananéia. As estruturas de PVC deixam a radiação solar entrar e retêm calor, elevando a temperatura interna entre 7°C e 12°C acima das condições externas.
Como o aquecimento muda a química do solo
Segundo Manoella Molitor, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia Física da USP e primeira autora do estudo, o calor extra acelera o metabolismo dos microrganismos do solo, que passam a consumir oxigênio mais rápido. “O ambiente se torna mais redutor, ou seja, passa a oferecer condições mais favoráveis aos processos anaeróbios”, explica a pesquisadora.
Com menos oxigênio disponível, os microrganismos recorrem a outras rotas de decomposição, como o uso de ferro e sulfato, até chegar a um estágio em que a produção de metano se torna mais favorável. No experimento, as emissões de CO2 caíram cerca de 73% logo no primeiro período de aquecimento, enquanto o CH4 seguiu subindo de forma progressiva ao longo dos seis meses.
Para Hermano Queiroz, professor do Departamento de Geografia da USP e orientador da pesquisa, o resultado desafia uma percepção comum sobre esses ambientes. “Há um entendimento de que os manguezais são ecossistemas extremamente resilientes, mas os nossos dados estão mostrando que, na verdade, eles têm as suas vulnerabilidades”, afirma. Como o metano tem potencial de aquecimento cerca de 30 vezes maior que o CO2, a mudança pode reduzir parte do benefício climático que esses solos oferecem hoje.
A descoberta reforça um alerta que já vinha de outra frente: um levantamento anterior da USP havia apontado que 64% dos solos do planeta têm baixa capacidade de reter carbono diante do estresse climático — e agora os manguezais entram nessa lista de ecossistemas em risco. O achado também contrasta com pesquisas que mostravam manguezais voltando a crescer após décadas de destruição: mesmo recuperando área, os sistemas intocados podem estar perdendo parte de sua eficiência como reservatório de carbono.
Um campo de pesquisa ainda pouco explorado
O grupo já havia identificado essa lacuna em um estudo bibliométrico anterior: de 30.084 artigos sobre manguezais mapeados na base Scopus entre 1950 e 2025, apenas 25 relacionavam explicitamente o solo desses ecossistemas à mitigação das mudanças climáticas — 0,08% do total. Os pesquisadores agora pretendem acompanhar o fenômeno por períodos mais longos para verificar se o aumento do metano se mantém e como ele poderia ser revertido.