A inteligência artificial já integra a rotina de milhões de estudantes brasileiros e obriga escolas públicas e particulares a criar regras para equilibrar o uso da tecnologia com o desenvolvimento do pensamento crítico.
Pesquisa internacional divulgada recentemente aponta que 49% das escolas ao redor do mundo proíbem celulares e IA em sala, enquanto no Brasil apenas 37% das instituições liberam o uso da tecnologia pelos alunos, segundo a TIC Educação 2025.
Mesmo com as restrições, sete em cada dez estudantes já recorrem a ferramentas de IA em pesquisas escolares, o que leva especialistas a defender orientação ao invés de proibição total.
Da proibição à orientação
Para especialistas, proibir a inteligência artificial não resolve o problema: a medida não impede o acesso à ferramenta e deixa os estudantes sem orientação para usá-la com responsabilidade. Já a liberação irrestrita levanta preocupações sobre dependência tecnológica e perda de autonomia intelectual — um risco reforçado pelo dado de que o desempenho de estudantes que não usam IA é, em média, 13% superior ao daqueles que recorrem à tecnologia, segundo a pesquisa internacional.
Sistema de semáforo
Para orientar o uso da ferramenta, uma escola de ensino médio adaptou um guia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), criado originalmente para a graduação. O modelo define três níveis: no verde, o uso é liberado; no amarelo, depende do contexto da atividade; e no vermelho, é proibido. Cabe ao professor decidir em quais etapas de uma pesquisa ou redação a IA pode entrar.
Aprender a fazer perguntas
Em uma escola pública do Rio de Janeiro voltada ao empreendedorismo, os alunos aprendem a elaborar “prompts” — as instruções enviadas à IA — para obter respostas mais precisas, e o celular é liberado nessas atividades específicas. A pesquisa Datafolha já havia mapeado esse cenário: 69% dos alunos do ensino médio usavam IA para pesquisas, mas menos de um terço recebeu orientação dos professores.
Sem diretriz nacional única, cada rede de ensino define sua própria estratégia, já que estados e municípios têm autonomia sobre a educação. O avanço não se limita à IA: a mesma pesquisa TIC Educação 2025 mostrou que o celular já é ferramenta pedagógica em 4 de cada 10 escolas do país, sinal de que a tecnologia avança apesar das proibições formais.
Regulamentação ainda depende do MEC
O Conselho Nacional de Educação aprovou recentemente a primeira regulamentação oficial sobre o tema, proibindo o uso de IA sem supervisão de um professor para alunos até o quinto ano do ensino fundamental. A proposta, que posiciona a tecnologia como apoio — e não substituta — do aprendizado, ainda depende de análise e validação do Ministério da Educação (MEC).
A capacitação dos professores é apontada como uma das principais apostas para adaptar as escolas à nova realidade. O MEC afirma disponibilizar cursos sobre uso educacional da IA, e milhares de docentes já buscaram formação na área, mas pesquisas indicam que menos da metade dos professores participou de algum treinamento sobre o tema.
O debate também chega às formas de avaliação: em universidades dos Estados Unidos, professores já combinam apresentações produzidas com apoio da IA a sessões presenciais de perguntas e respostas, nas quais o aluno precisa demonstrar domínio sobre o conteúdo. Para pesquisadores, o objetivo final é desenvolver pensamento crítico e responsabilidade no uso da ferramenta, sem que ela substitua a reflexão dos estudantes.