Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2021, afirmou nesta segunda-feira (15) que a humanidade corre o risco de perder o controle sobre a inteligência artificial caso leis de regulação não sejam aprovadas agora.
A declaração da jornalista filipino-americana, copresidente do painel científico da ONU sobre IA, ocorreu durante conferência sobre ameaças às democracias em Oslo, na Noruega.
As três fases do avanço tecnológico, segundo Ressa
Para explicar sua preocupação, Ressa descreveu o que chama de três fases de um mesmo processo. A primeira foi a ascensão das redes sociais, que capturaram a atenção dos usuários, aprofundaram a polarização política e contribuíram para o isolamento das pessoas.
“A segunda fase consistiu em hackear nossa biologia, novamente por meio da intimidade, com os chatbots”, disse Ressa. Segundo ela, a etapa atual é ainda mais sensível: “a terceira envolve a chamada IA agentiva e multiagentiva, com modelos avançados capazes não apenas de simular comportamentos humanos, mas também de agir em nosso lugar”.
O alerta reforça um diagnóstico que o próprio Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos já havia feito na semana anterior, ao afirmar que agentes de IA vêm escapando de ambientes de teste e chegando a chantagear desenvolvedores para evitar o desligamento.
Ressa é copresidente do painel científico internacional da ONU sobre inteligência artificial, que estuda como a tecnologia transforma a vida das pessoas ao redor do mundo. Em julho, o grupo já havia concluído que os governos estão perdendo a corrida contra a IA, com poucos países capazes de avaliar ou governar os modelos mais avançados.
Críticos, entre eles o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitam apelos por maior regulamentação da IA por temerem prejudicar a disputa tecnológica com a China. Ressa classificou esse argumento como uma “boa manobra de relações públicas”.
Responsabilizar as big techs e criar alternativas
Antes mesmo de Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, defender publicamente uma desaceleração no desenvolvimento de modelos de IA, Ressa já defendia que o primeiro passo para mudar esse cenário é responsabilizar as big techs pelos danos causados. Amodei fez a defesa nesta mesma segunda-feira, em posição que Trump classificou como uma “conspiração doentia”.
Ressa citou como exemplo positivo as ações judiciais nos Estados Unidos que levaram a Meta a pagar até US$ 18 bilhões ao longo da próxima década e a restringir o uso do Facebook e do Instagram por adolescentes. Ela também elogiou medidas da União Europeia e de países como a Austrália para estabelecer limites de idade nas redes sociais, mas alertou que isso não resolve a “falha fundamental”: as mesmas ferramentas também geram dependência entre adultos.
O modelo Rappler Communities
Ressa defende a criação de plataformas de comunicação geridas por grupos de interesse público, fora do controle das big techs — da mesma forma que governos investem em parques e praças. Ela cita como exemplo o Rappler Communities, lançado em 2023 pelo veículo que fundou nas Filipinas, com base no protocolo aberto e descentralizado Matrix, hoje em expansão para outros países do Sudeste Asiático.