O Ministério da Saúde ampliou a recomendação de vacinação contra o HPV para crianças vítimas de violência sexual a partir dos 2 anos de idade. Até então, a indicação específica para esse grupo começava apenas aos 9 anos e ia até os 45.
A mudança responde a um salto nos registros de abuso contra os menores: segundo o Atlas da Violência 2026, do Ipea, as notificações entre crianças de 0 a 4 anos passaram de 1.671, em 2014, para 7.845 em 2024.
Como funciona a nova dose
Pela recomendação, meninos e meninas vítimas de violência sexual poderão receber uma dose da vacina quadrivalente contra o HPV após avaliação do serviço ou do profissional de saúde responsável pelo atendimento, com indicação a partir dos 2 anos.
O imunizante protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus. Os tipos 16 e 18 estão associados a cânceres como o de colo do útero, enquanto os tipos 6 e 11 respondem por grande parte das verrugas anogenitais. A vacina não elimina uma infecção já adquirida durante o abuso, mas protege contra os tipos aos quais a criança ainda não foi exposta.
Dose não substitui o calendário de rotina
Se a criança receber a vacina antes dos 9 anos, essa aplicação não conta como parte do esquema básico: ao chegar à idade da vacinação de rotina, ela deverá ser imunizada novamente conforme o calendário vigente. Já quem já foi vacinado contra o HPV não tem indicação automática de nova dose apenas por ter sofrido violência sexual.
Dados que embasaram a decisão
A ampliação foi discutida na Câmara Técnica Assessora em Imunizações do Ministério da Saúde, que apoiou de forma unânime a mudança. Desde 2023, a vacina já era oferecida a vítimas de violência sexual dos 9 aos 45 anos. Os números que sustentam a nova recomendação já haviam sido detalhados pelo Atlas da Violência 2026: entre crianças de 5 a 14 anos, as notificações quadruplicaram na última década e concentraram 66% de todos os casos registrados em 2024.
A nota técnica do Ministério reconhece que os números oficiais não revelam toda a dimensão do problema — um estudo do Ipea estimou cerca de 822 mil estupros por ano no Brasil, dos quais apenas uma parcela chega aos sistemas de saúde ou de segurança.
A medida se soma a outras iniciativas recentes para ampliar a cobertura do HPV no país: em junho, o Ministério já havia prorrogado até dezembro a campanha voltada a adolescentes de 15 a 19 anos que ainda não haviam recebido o imunizante.