Erivelton Gomes, de 34 anos, morreu em menos de uma hora após comer siri e caranguejo durante uma viagem a Alagoas em maio deste ano. Ele já sabia ser alérgico a camarão, mas resolveu arriscar experimentar os outros frutos do mar pela primeira vez.
O caso relatado pelo marido, Lucas Cerqueira, reflete um problema que cresce no Brasil: reações alérgicas graves mataram 499 pessoas entre 2022 e 2026, segundo o Ministério da Saúde, enquanto os atendimentos por alergia no SUS quase dobraram no período.
Por que uma reação alérgica pode evoluir para óbito
A alergia ocorre quando o sistema imunológico reage de forma exagerada a substâncias consideradas inofensivas, como alimentos, ácaros, pelos de animais ou medicamentos. Segundo a alergista Chayanne Andrade, da Asbai, parte das pessoas já nasce com predisposição genética a determinados tipos de reação, mas o problema também pode surgir em qualquer fase da vida, inclusive na vida adulta.
Casos como o de Gomes são classificados como anafilaxia, a forma mais grave e imediata de reação alérgica. Segundo a alergista Flavia Anísio, do IFF/Fiocruz, o quadro provoca liberação descontrolada de mediadores inflamatórios, capaz de estreitar as vias aéreas, inchar a laringe e derrubar a pressão arterial. “Sem a administração imediata de adrenalina, a obstrução respiratória pode se instalar em minutos e levar ao óbito”, afirma.
A alergista Marina Takao, do Hospital das Clínicas da Unicamp, associa o aumento de casos registrados no país a mudanças no estilo de vida, estresse e poluição — fatores que funcionam como gatilhos capazes de desregular o sistema imunológico. Rinite, asma, dermatite atópica e urticária estão entre as reações mais recorrentes, enquanto leite, ovos, amendoim, castanhas, trigo, soja, peixes, crustáceos e gergelim respondem por mais de 90% das alergias alimentares.
Adrenalina importada custa até R$ 2 mil e caso de piloto expõe risco em jovens
O tratamento de emergência para anafilaxia é a adrenalina, aplicada por uma caneta injetável que interrompe a crise em minutos. O medicamento não é fabricado no Brasil e precisa ser importado — o par de canetas, recomendado para todo paciente alérgico, custa cerca de R$ 2 mil. No SUS, a substância está disponível apenas em ampola injetável, aplicada por profissionais de saúde em emergências.
A morte de Gomes não foi um caso isolado neste ano: em julho, um piloto de 27 anos em Ponta Grossa (PR) também morreu de anafilaxia — reforçando que a reação pode ser letal mesmo em jovens sem histórico clínico conhecido.
Para reduzir o risco, especialistas recomendam a leitura constante dos rótulos de alimentos, já que a composição pode mudar sem aviso, e atenção redobrada em refeições fora de casa para evitar contaminação cruzada entre utensílios e óleos de preparo. “É a memória imunológica que vai reconhecer aquele alimento. Então, tanto faz ser um pouquinho ou muito. É necessário evitar completamente a causa da alergia”, diz Chayanne Andrade.