O Paraná foi atingido por dois tornados de categoria mais intensa em menos de 24 horas nesta semana, reacendendo a discussão sobre a frequência desse fenômeno no Brasil.
Dados inéditos obtidos pelo g1 mostram que o país registrou 524 tornados entre 2018 e agosto de 2026, e o Sul concentra a maior parte dos casos, segundo levantamento do projeto Prevots, ligado à UFSM, à Universidade de Oklahoma, ao INPE e ao IGAM.
Dos 524 tornados registrados no país desde 2018, 227 ocorreram em apenas três estados do Sul: Rio Grande do Sul (93), Paraná (81) e Santa Catarina (53) — juntos, os três respondem por 43% de todos os casos mapeados no Brasil. Em 2026, o país já soma 86 tornados até agosto, número que equivale a 58% do total registrado em todo o ano de 2025.
Por que o Sul concentra os tornados mais fortes
Segundo Ernani Nascimento, doutor em Meteorologia pela Universidade de Oklahoma e pesquisador do INPE, o fenômeno se forma quando o ar quente e úmido que vem da Amazônia pelos chamados rios voadores encontra o ar frio e seco vindo da Argentina. Esse choque de massas acelera o vento em altura — o cisalhamento — e pode fazer a rotação descer até perto do solo, dando origem ao tornado.
Enquanto no país como um todo predominam os tornados mais fracos, no Sul a lógica se inverte: 51% dos casos identificados na região são do tipo supercélula, o mais destrutivo. Foi uma tempestade desse tipo que devastou Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, em 2025, com um tornado F4 que matou seis pessoas.
São Paulo aparece logo atrás do Rio Grande do Sul no ranking nacional, com 90 registros — três a menos que o estado gaúcho. De acordo com Nascimento, a mesma combinação de fatores que atinge o Sul também alcança o Centro-Sul, incluindo São Paulo e o Mato Grosso do Sul, ainda que com menor frequência. Sarandi e Guaíba (RS) e Dourados (MS) lideram o ranking de cidades mais atingidas, com nove ocorrências cada uma desde 2018.
O Brasil não tem um banco de dados oficial dedicado a tornados. Por isso, pesquisadores do Prevots cruzam relatos de moradores nas redes sociais e notícias com imagens de satélite ambiental — as mesmas usadas para monitorar queimadas — para identificar o rastro de destruição deixado na vegetação e confirmar cada ocorrência.
Previsão tem janela curta
Apontar uma região com risco de tempestades favoráveis a tornados é possível com até 24 horas de antecedência, mas prever o local exato e o horário é muito mais difícil: o tornado tem menos de um quilômetro de diâmetro e raramente dura mais de meia hora. A previsão só ganha precisão quando a tempestade já está em andamento e o radar meteorológico detecta rotação, indicando possível formação de supercélula — nesse momento, o alerta vale para os próximos 30 a 45 minutos.
Nesta semana, apenas a Climatempo previa tornado com mais de um dia de antecedência, dias depois de o Inmet emitir alerta de grande perigo para nove estados do Centro-Sul, com ventos acima de 100 km/h e risco elevado no oeste paranaense. O país já conta com radares de dupla polarização, os mesmos usados nos Estados Unidos, e o INPE treina previsores para reconhecer o chamado “modo tornádico” nas imagens. O aumento nos registros também acompanha uma tendência já identificada em o Brasil como o 2º país com mais tornados do mundo.