O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, informou na sexta-feira (11/9) que o iPhone 17 Pro apreendido com Daniel Vorcaro segue sob custódia da Polícia Federal e não está em seu gabinete.
A resposta foi enviada ao presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, depois que o ministro Cristiano Zanin pediu acesso integral ao aparelho do banqueiro investigado na Operação Compliance Zero.
Por que o celular ficou com a PF
Segundo o despacho, Mendonça determinou em 19 de fevereiro de 2026, ao assumir a relatoria do caso, que o material original permanecesse nos depósitos da própria corporação. A decisão buscou preservar a cadeia de custódia das provas recolhidas contra Vorcaro.
O gabinete do relator, explicou o ministro, possui apenas uma cópia de segurança dos dados extraídos do telefone: um HD criptografado entregue voluntariamente pela PF em março de 2026, ainda lacrado e sem qualquer manuseio.
A preocupação com a integridade do material já havia mobilizado a PF meses antes: em março, investigadores apuravam se os dados de Vorcaro haviam sido copiados para um HD externo — o mesmo tipo de suporte que está sob a guarda de Mendonça.
Disputa por acesso não é nova
O pedido de Zanin reacendeu uma controvérsia sobre quem tem contato com os dados do aparelho. Em março de 2026, o gabinete de Dias Toffoli negou ter acessado o material durante o período em que relatava o caso Master, antes de Mendonça assumir a condução do inquérito.
O interesse renovado sobre o conteúdo do celular também tem relação com descobertas recentes. No início de setembro, Mendonça cobrou explicações da PGR sobre uma mensagem em que Vorcaro pedia proteção a autoridades, registrada no mesmo aparelho. O relatório da PF identificou ao todo 52 mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes — matéria que Fachin levou ao plenário para discussão.
Nos dias seguintes, a pressão sobre Fachin se ampliou. Além de Zanin — que argumentou que a própria defesa de Vorcaro já havia tido acesso ao conteúdo integral —, os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes também acionaram o presidente da Corte. Moraes afirmou que “não cabe ao ministro relator escolher quais os documentos acessíveis ao Colegiado para realizar seu julgamento”. Gilmar apontou que a retenção dos dados comprometia o equilíbrio interno da Corte e pediu que, caso Mendonça não liberasse os arquivos, Fachin requisitasse as mídias diretamente à PF.
Diante das cobranças, Fachin fixou no sábado (12/9) um prazo de 24 horas para que a PF prestasse esclarecimentos detalhados sobre a guarda e as condições do aparelho. Na manhã do domingo (13/9), a corporação respondeu ao presidente do STF confirmando que dispunha de plenas condições técnicas para produzir e enviar uma cópia idêntica dos dados a todos os gabinetes que solicitassem. Em nota, a PF também esclareceu que o aparelho e a extração original nunca haviam saído de suas dependências — e que o arquivo encaminhado ao gabinete de Mendonça em março era uma cópia dos dados extraídos, não o material original, atendendo a solicitação formal do próprio gabinete.
No domingo (13/9), Zanin foi além e determinou diretamente ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que entregasse até as 23h daquele dia uma cópia integral do conteúdo extraído do aparelho. Em seu despacho, o ministro rebateu Mendonça argumentando que não existe “hierarquia entre os ministros do STF”, que as provas pertencem ao plenário e a seus integrantes — e não ao relator —, e que a própria PF havia confirmado ter condições de fornecer cópias a todos os gabinetes sem comprometer a cadeia de custódia. Zanin também destacou que o material já havia sido disponibilizado aos advogados de Vorcaro, o que tornava inadmissível restringir o acesso aos próprios julgadores. Mendonça respondeu no mesmo dia com um ofício sustentando que a abertura total “somente contribuiria para tumultuar o julgamento” e colocaria “em risco todo o seguimento e êxito das investigações”, alegando que todos os ministros já contavam com o material necessário para analisar o caso.
Em resposta, a PF divulgou nota na segunda-feira (14/9) informando que havia entregue cópias dos dados extraídos do celular aos gabinetes dos três ministros — Moraes, Zanin e Gilmar Mendes. O gabinete de Zanin confirmou o recebimento do conteúdo integral naquele mesmo dia. A corporação confirmou que as cópias “são idênticas à extração realizada do aparelho” e que o original permanece sob custódia formalmente documentada, com lacres íntegros.
O impasse sobre o acesso ao celular alimentou articulações de bastidores em torno do julgamento. Seis posições eram consideradas mais consolidadas: Gilmar Mendes, Flávio Dino e Zanin eram apontados como alinhados com Moraes; Mendonça contaria com o apoio de Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. As posições de Fachin e Cármen Lúcia permaneciam incertas, com os dois recebendo acenos dos dois lados. Dias Toffoli havia indicado a colegas a tendência de não participar por considerar a matéria desdobramento do caso Master — processo do qual se declarou suspeito ao deixar a relatoria.
Na terça-feira (15/9), o plenário do STF teve julgamento pautado para analisar o relatório da PF sobre as mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes.