Pesquisadores identificaram a tovaca-de-baturité (Chamaeza baturitensis), uma nova espécie de ave encontrada exclusivamente na Serra de Baturité, no Ceará, principalmente nos municípios de Guaramiranga e Pacoti.
A descoberta resultou da análise de 183 gravações e 134 exemplares, que revelou diferenças no canto e na plumagem em relação à Chamaeza campanisona, espécie até então considerada a mesma em toda a América do Sul.
A identificação foi conduzida por uma equipe liderada pelo pesquisador Vagner Cavarzere, que baseou a comparação em características de vocalização e de plumagem. Segundo ele, “diferentes espécies de aves têm cantos distintos. Quando você encontra uma diferença forte na vocalização, isso já é um indicativo bastante importante de que estamos diante de espécies diferentes”.
Canto acelerado e mais notas
Das 340 vocalizações analisadas nas 183 gravações, a população do Ceará apresentou o canto mais acelerado entre os grupos comparados, com média de 99,1 notas distribuídas em cerca de 9,8 segundos — podendo chegar a 13 segundos com a sequência final. Para reforçar a distinção, os cientistas recorreram a um modelo de inteligência artificial, que classificou corretamente 92% dos cantos e 90% dos chamados conhecidos como “croaks”.
Além do som, a plumagem também diferencia as duas espécies. Os exemplares do Ceará têm garganta e peito mais amarelados e menos marcas pretas, enquanto a Chamaeza campanisona apresenta uma mancha preta característica na região frontal, acima do bico. A suspeita de divergência já existia desde 1992, quando um estudo do ornitólogo Edwin O. Willis apontou pequenas diferenças entre as aves cearenses e as populações do sul do rio São Francisco, faltando à época uma análise taxonômica completa.
O Ceará tem se consolidado como território central para a ornitologia brasileira — um documentário lançado em julho acompanhou pesquisadores monitorando aves no Banco dos Cajuais, no litoral do estado, reforçando o esforço contínuo para entender e proteger a avifauna local.
Possível terceira espécie em Alagoas
A pesquisa também identificou diferenças relevantes nas vocalizações de uma população de Alagoas, com canto ainda mais distinto das demais. O material disponível, porém, é escasso: os cientistas contam apenas com uma gravação de 1981, que registra ao menos dois indivíduos, além de fotografias de aves observadas na natureza. Por isso, essa população ainda não foi formalmente reconhecida como espécie nova — novos registros e análises serão necessários para confirmar a hipótese.
A tovaca-de-baturité ocorre em remanescentes de floresta montana, áreas de mata úmida que funcionam como “ilhas” de vegetação na Serra de Baturité e dependem de conservação para sobreviver. Cavarzere destaca que ainda faltam estudos sobre o tamanho da população: “Não temos estudos sobre o tamanho da população. Conseguir essa informação é fundamental para pensarmos em ações de conservação”. A dependência de remanescentes florestais é um problema recorrente na Mata Atlântica: a jacutinga chegou a desaparecer de três estados justamente pela destruição progressiva desse bioma.
O estudo ainda não fez uma avaliação formal sobre o grau de ameaça da nova espécie, mas mapear sua distribuição restrita e os ambientes que utiliza já ajuda pesquisadores a compreender melhor sua situação de conservação.