O Ministério Público de São Paulo ajuizou ação civil pública contra a fabricante de ração Nutratta e o proprietário da empresa por danos causados a centenas de animais em seis estados do país. A ação foi protocolada na sexta-feira (22) pela Promotoria de Justiça do Consumidor.
Ao menos 645 animais morreram após consumir produtos da marca contaminados com monocrotalina, toxina hepatotóxica e neurotóxica. O MP pede R$ 10 milhões em indenização pelos danos causados.
Toxina em concentração 2.600 vezes acima do limite
Segundo o processo, a Nutratta utilizou resíduos de soja contaminados com alcaloides pirrolizidínicos na fabricação de rações para equinos, bovinos, suínos e aves. Laudos laboratoriais e necropsias apontaram a presença das substâncias tóxicas em concentrações até 2.600 vezes superiores ao limite seguro para cavalos.
A monocrotalina — toxina presente em plantas do tipo crotalária — foi identificada como a substância causadora das mortes pelo Ministério da Agricultura. Os primeiros casos de intoxicação surgiram em 21 de abril de 2025, no Rio de Janeiro. A primeira morte foi registrada dois dias depois, em São Paulo.
Mortes espalhadas por seis estados
Os danos se estenderam por São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Alagoas. Em Atalaia (AL), 79 animais morreram após consumir ração da empresa. Na Grande São Paulo, ao menos nove cavalos da chácara Dia de Sol, em Guarulhos, morreram em 2025. Houve relatos também em Campinas, Itu, Porto Feliz, Volta Redonda e Jaboticatubas.
O Ministério da Agricultura determinou o recolhimento de todos os produtos da empresa destinados a equídeos produzidos a partir de novembro de 2024 e proibiu a comercialização. A Nutratta não respondeu às solicitações de comentário sobre o processo.
Risco à cadeia alimentar humana
A ação civil pública aponta que os danos podem ter ultrapassado os animais e atingido a cadeia alimentar humana. Segundo o MP, a mesma linha de produção era usada para fabricar ração bovina sem mecanismos eficazes de controle de contaminação cruzada. Auditoras do Ministério da Agricultura alertaram para o risco de transmissão dos alcaloides tóxicos por meio do leite, da carne e do fígado de animais alimentados com os produtos contaminados.
Sintomas agudos e sem cura
Os animais intoxicados apresentavam sinais neurológicos agudos: cabeça baixa, perda de controle dos movimentos e comportamento desorientado — como andar em círculos ou tentar morder as paredes. A evolução era rápida e frequentemente fatal.
A veterinária Marcella Batista, que perdeu dois cavalos em menos de 30 dias em Cabreúva (SP), afirmou que não existe cura para a intoxicação. “Há apenas tratamento de suporte com soro e antitóxicos. A intoxicação causa alteração das enzimas hepáticas e, eventualmente, sintomas neurológicos, que podem levar à eutanásia devido ao sofrimento animal”, declarou. Especialistas recomendam exame das enzimas hepáticas em animais que consumiram a ração contaminada para iniciar tratamento preventivo.