Um estudo inédito mapeou 48 Zonas de Transferência de Sementes (ZTS) no Brasil para orientar a restauração ecológica diante da crise climática. A pesquisa foi publicada na revista científica Plants, People, Planet e é liderada pelo Redário, articulação nacional de coletores de sementes.
As zonas reúnem regiões com clima e solo semelhantes e projetam cenários até 2100, ajudando a definir quais sementes nativas terão mais chance de sobreviver ao clima das próximas décadas.
Sementes de hoje, clima de amanhã
Segundo Eduardo Malta, do Instituto Socioambiental (ISA) e coordenador do Redário, o mapa “conecta com inteligência climática e ecológica os territórios onde as sementes são coletadas e onde são plantadas”. Ele explica que a ferramenta responde a uma pergunta prática: até que distância uma semente local pode ser levada para plantio sem perder desempenho, considerando o clima atual e o futuro.
Para os anos de 2060 e 2100, o estudo recomenda misturar sementes nativas do clima atual e do clima projetado, em proporções ainda a serem testadas, o que deve aumentar a variabilidade genética dos plantios e as chances de sucesso a longo prazo.
Os cenários analisados, um otimista e outro pessimista, mostram que entre 51% e 88% do território brasileiro pode apresentar incompatibilidade entre as zonas de sementes usadas hoje e as condições climáticas futuras. Amazônia e Cerrado concentram a maior diversidade de zonas identificadas, reflexo da heterogeneidade ambiental desses biomas — mas em várias dessas áreas ainda não existe oferta de sementes nativas no mercado.
Da ciência à política pública
O Redário espera que o mapeamento sirva de base para políticas públicas, protocolos e diretrizes nacionais de restauração. Entre as recomendações da rede estão a adoção gradual e participativa do modelo junto a pesquisadores, órgãos públicos e organizações comunitárias; o investimento na cadeia de produção de sementes, com prioridade para as zonas com menor oferta; e a criação de um sistema de rastreabilidade que garanta boas práticas de coleta e conservação genética.
A proposta também reforça o protagonismo de povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e redes de coletores de sementes na execução desses plantios.
O tipo de projeto que as ZTS pretendem orientar já aparece em iniciativas como o plantio que restaura vegetação nativa e fecha trilhas clandestinas nos Lençóis Maranhenses. E a urgência do mapeamento fica evidente diante do tamanho do passivo florestal: mesmo com a Amazônia registrando o menor nível de alertas de desmatamento em dez anos, as áreas a restaurar somam milhares de quilômetros quadrados — e vão exigir sementes preparadas para o clima de 2060, não apenas para o de hoje.
