Delmiro Gouveia, no interior de Alagoas, sancionou em junho uma lei que transforma o macaco-prego-galego (Sapajus flavius) em patrimônio da biodiversidade municipal.
A norma também criou o Dia Municipal do Macaco-Prego-Galego, celebrado nesta terça-feira (1º), coincidindo com o Dia Mundial dos Primatas.
A iniciativa nasceu da parceria entre a prefeitura e o Promaser, projeto que monitora desde 2023, com apoio da Universidade Federal de Pernambuco, populações do primata ameaçado de extinção na Caatinga alagoana.
Uma espécie redescoberta na Caatinga
Descrito pela primeira vez em 1774, o macaco-prego-galego desapareceu dos registros científicos por mais de dois séculos, até ser redescoberto em 2006 na Mata Atlântica nordestina. Só em 2019 o primata foi identificado na Caatinga potiguar — e a real distribuição da espécie no bioma segue incerta.
Essa lacuna motivou a criação do Promaser (Projeto de Pesquisa e Conservação dos Mamíferos do Alto Sertão), que desde 2023 realiza o primeiro monitoramento contínuo da espécie na região, com 22 armadilhas fotográficas instaladas no Monumento Natural do Rio São Francisco e no Refúgio de Vida Silvestre dos Morros do Craunã e do Padre, em Água Branca.
“O macaco-prego-galego é muito bem estudado na Mata Atlântica, mas na Caatinga ainda não tinha sido feito nada sistemático”, explica o pesquisador João Pedro de Souza Alves, da Universidade Federal de Pernambuco, que lidera o projeto ao lado da mestranda Gabriella Rufino.
Uso de ferramentas e dieta diversificada
O monitoramento revelou comportamentos pouco comuns na espécie: o uso contínuo de pedras como ferramenta para quebrar coquinhos, hábito raro na Mata Atlântica, e uma dieta que inclui calangos, saguis, crustáceos terrestres e frutos de cactos — que exigem habilidade para remover espinhos.
No Brasil, o macaco-prego-galego é avaliado pelo ICMBio como Em Perigo de extinção, com população estimada em cerca de dois mil indivíduos distribuídos em apenas 488 km² de área de ocupação conhecida — menor que o território de Maceió. Perda e fragmentação de habitat, conflitos com humanos e o risco de desertificação da Caatinga são as principais ameaças.
O modelo de engajamento municipal também ecoa outra experiência de conservação: em Alta Floresta (MT), outro município que adotou um primata ameaçado como símbolo local, a parceria entre prefeitura e pesquisadores resultou em pontes de dossel que zeraram atropelamentos da espécie.
Próximos passos: zoneamento e proteção dos sítios de ferramentas
Com os dados do monitoramento, pesquisadores e prefeitura articulam junto ao ICMBio um novo zoneamento do Monumento Natural do Rio São Francisco, hoje restrito à borda do cânion, para ampliar as zonas de preservação e incluir áreas com populações do macaco-prego-galego, do gato-mourisco e da jaguatirica.
A prefeitura também estuda criar um parque municipal de 214 hectares no povoado de Cruz, mas o processo está parado por resistência da comunidade local à proposta — um impasse que tem paralelo em outra unidade de conservação: no Paraná, a pressão de proprietários rurais levou o estado a recuar de uma proteção integral e adotar uma categoria de uso sustentável para proteger os muriquis-do-sul.
Os pesquisadores também avaliam propor a proteção dos sítios onde os macacos usam pedras para quebrar alimentos, tratando-os como patrimônio comportamental — à semelhança de sítios com pinturas rupestres —, já que o hábito é transmitido entre gerações.
Para o secretário municipal de Meio Ambiente, Marco Antônio Diniz, o objetivo é que Delmiro Gouveia vire referência para outros municípios do semiárido com presença da espécie: “Queremos gerar esse pertencimento dos moradores com a espécie através da educação ambiental”.