Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado nesta quarta-feira (2), confirma que a humanidade não vai mais evitar a ultrapassagem do limite de 1,5°C de aquecimento global previsto no Acordo de Paris.
O documento afirma que o overshoot deve ocorrer “provavelmente nos próximos anos” e que, mesmo no cenário mais otimista — com todas as metas climáticas nacionais cumpridas —, a temperatura da Terra ainda deve chegar a 1,8°C.
Um mundo que já sentia o calor
O relatório do Pnuma não trata de um risco distante. Apenas três meses atrás, dados ainda projetavam que o planeta poderia cruzar a barreira de 1,5°C por volta de 2030 — o novo documento transforma essa projeção em certeza, sem data fixa, mas com urgência declarada.
Nas últimas duas décadas, o mundo registrou mais de 50 ondas de calor de alto impacto e sem precedentes. Entre maio de 2024 e maio de 2025, cerca de metade da população mundial enfrentou pelo menos 30 dias de calor extremo, com aumento da mortalidade associada ao calor em escala global. O aquecimento também elevou a probabilidade de chuvas intensas, inundações, secas e incêndios florestais.
Em março, a Organização Meteorológica Mundial já havia mostrado que o planeta retém mais energia do que em qualquer momento desde 1960, com os oceanos absorvendo o equivalente a 18 vezes o consumo global de energia por ano — o combustível por trás dos extremos que o Pnuma agora descreve como apenas um aviso.
Países pobres pagarão a conta primeiro
Segundo o Pnuma, nações menos desenvolvidas, pequenos Estados insulares e populações vulneráveis serão atingidos de forma desproporcional. Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, “o calor escaldante, os incêndios florestais devastadores e as inundações mortais são um alerta do que está por vir” e exigem uma ultrapassagem da ambição climática.
Claudio Angelo, do Observatório do Clima, resume o momento: “entramos numa era de consequências, como a tragédia da última semana no Nepal deixou claro, e nenhum governo do planeta está preparado para o que enfrentaremos nas próximas décadas.”
Reverter o aquecimento é possível, mas exige corte drástico de emissões
Se a ambição climática permanecer nos níveis atuais, o aumento de temperatura pode chegar a 2,6°C ou mais até o fim do século, segundo o Pnuma. Reverter esse quadro depois de ultrapassar 1,5°C é tecnicamente possível, mas exigiria emissões líquidas negativas de CO₂ sustentadas por décadas ou séculos, além de cortes profundos nas emissões de metano — especialmente as ligadas à agricultura.
O relatório aponta que a infraestrutura de combustíveis fósseis já existente e planejada pode exceder em 120% o volume de emissões de CO₂ compatível com a meta de 1,5°C em 2030, o que torna o objetivo cada vez mais distante sem uma ruptura imediata na expansão do setor.
A meta de 1,5°C foi definida no Acordo de Paris como um “limite seguro”, e entender por que esse número importa ajuda a dimensionar o tamanho da confirmação feita agora pelo Pnuma.
Para Claudio Angelo, abandonar o objetivo de devolver os termômetros a 1,5°C “não é uma opção” e seria como “assinar um pacto coletivo de suicídio”. Segundo ele, o pico e o declínio da temperatura só ocorrerão quando os países produtores de combustíveis fósseis pararem de tratar essa indústria como uma vantagem econômica. A COP31, marcada para daqui a dois meses, é apontada como uma oportunidade concreta para decidir sobre o fim da expansão fóssil.