Meio ambiente

Guarás voltam a colorir manguezais da Bahia após 30 anos de replantio

Reflorestamento com mudas nativas e educação ambiental impulsionaram o retorno da ave símbolo dos estuários no Recôncavo baiano
Guarás manguezais Recôncavo Baiano: aves escarlates entre raízes aéreas e água turquesa do estuário

No Porto do Cajá, em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, bandos de guarás voltam a colorir de vermelho o amanhecer e o entardecer sobre os manguezais da Baía de Todos os Santos.

O aumento nos avistamentos da espécie, ave símbolo dos estuários, é resultado de três décadas de reflorestamento com mudas nativas e de educação ambiental voltada a pescadores e marisqueiras da Bahia.

Levantamento cruzando dados do MapBiomas, WikiAves, GBIF e eBird mostra que os manguezais de Maragogipe ganharam quase 488 hectares entre 1985 e 2023.

Até o fim dos anos 1990, os manguezais de Maragogipe serviam de lenha para padarias, olarias, carvoarias e casas de defumação de carne suína, além de sofrerem com aterros e descarte irregular de lixo, relata o engenheiro agrônomo Bruno Barbosa, coordenador da Fundação Vovó do Mangue.

Da lenha ao replantio: a virada do manguezal

Pressão de moradores e audiências públicas levaram o governo federal a criar, em 2000, a primeira Reserva Extrativista da Bahia sob gestão do Ibama — hoje a Resex Marinha da Baía do Iguape, administrada pelo ICMBio desde 2007. A partir daí, a fundação, criada em 1997, passou a liderar o plantio de mudas nativas em parceria com pescadores e marisqueiras, dentro do projeto CO2 Manguezal.

O vermelho intenso das penas do guará vem da dieta baseada no caranguejo chama-maré (Uca maracoani), cujo pigmento tinge a plumagem, segundo dados compilados pela WikiAves. A espécie forrageia em bandos que somam milhares de indivíduos nas áreas mais preservadas do Recôncavo.

“Quando o mangue tá com saúde, ele funciona como o verdadeiro berçário de toda a vida marinha. É esse equilíbrio que atraiu os guarás”, descreve a marisqueira Norma Borges, moradora de São Roque do Paraguaçu.

Carbono azul e o alcance global da restauração

Dados do MapBiomas mostram que, entre 1985 e 2023, Maragogipe perdeu 508 hectares de espelho d’água do Rio Paraguaçu, mas ganhou 488 hectares de floresta de manguezal no mesmo período — inversão que a fundação credita à combinação de fiscalização, replantio e educação ambiental.

O fenômeno local dialoga com uma tendência mais ampla: um estudo recente mostrou que, pela primeira vez em décadas, os manguezais do planeta crescem mais do que são destruídos, fenômeno atribuído ao fortalecimento de leis ambientais e à regeneração natural quando a pressão humana recua.

Além de abrigo para peixes, crustáceos e moluscos, os manguezais são apontados por artigo de 2021 da revista Science como o bioma brasileiro com maior capacidade de captura e armazenamento de carbono — o chamado carbono azul, segundo relatório do Pnuma.

“Ver o voo dos guarás sobre os manguezais de Maragogipe é um bioindicador de que a natureza responde quando recebe a oportunidade de se recuperar”, resume o educador ambiental Carlinhos de Tote, da Fundação Vovó do Mangue.

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